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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Timidez



Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.


Cecília Meireles


*


"Seria mais fácil para todos se pudéssemos demonstrar nosso interesse de forma aberta, sem jogos de sedução. Também seria melhor se a recusa ao nosso interesse não causasse dor. A transparência de intenções nos pouparia tempo e aflição, no entanto não seríamos humanos se não sentíssemos frio na barriga e se não criássemos expectativas e fantasias. Essas, em geral, mais atrapalham as aproximações amorosas do que ajudam. É que a paixão não se nutre da realidade. O medo de rejeição paralisa qualquer iniciativa amorosa. Às vezes é preferível viver num devaneio do tipo mal-me-quer/bem-me-quer do que definir uma situação. Enquanto houver possibilidade de envolvimento, há esperança. E viver de esperança pode ser melhor do que ser triste ou rejeitado. Cada um sabe do que precisa para aguentar viver." Luciana Saddi.


 *


* Luciana Saddi é escritora, psicanalista e escreve para a Folha de São Paulo. **Poesia com o tema "desenvolvido" é uma outra possibilidade que ando investigando. Mas guardo um tanto de receio... Que tal, aprovado?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Invenção



O amor é uma invenção, você já deve ter reparado nisso. Uma invenção miúda que passa à margem da vida, embora totalmente necessária. Como são os alfinetes, as linhas e agulhas de costura, ninguém se lembra disso, ninguém vive sem isso. O amor costura, faz bainha de calça, prende botões e ajusta. O que seria de nós sem o amor? Mais solidão, falta do que pensar, sem ter uma saída. O amor é uma saída.

A paixão é uma grande invenção, você já deve ter reparado nisso. E quanto mais inventada mais necessária é. Para tanto existe uma tabela de coincidências, tão urgente à paixão quanto o açúcar aos doces. Vocês são gordos? Coincidência. Descendentes de japoneses? Coincidência. A família imigrou há 200 anos da mesma cidade do Líbano? Coincidência. Gostam da mesma cor? São ruivos? Suas mães têm a letra C no nome? Tiraram as amídalas na infância? Seu filme predileto é estrelado pelo ator que ela mais odeia? Coincidências. Quanto mais coincidência melhor, mais intensa se torna a invenção. Supera obstáculos, cobre vazios e confere energia aos motores flaquitos. O que seria de nós sem a paixão? Puro tédio, noites e noites sem assunto, sem brilho no olhar, sem vontade de sair da cama, para quê? A paixão é isso mesmo, o para quê da vida.

A vida também é uma grande invenção, você já deve ter reparado nisso.


...


 
* do livro, O amor leva a um liquidificador, de Luciana Saddi. Imagem, Toulouse-Lautrec.