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sábado, 2 de novembro de 2013

Shavasana




"Lembrei agora: ano passado, nesse feriado de 2 de novembro, tinha sol. Os amigos foram chegando, ficamos com aquela criançada correndo em volta, mateando no pátio. 

Há tempos estávamos pra fazer uma horta, e naquele dia a coisa aconteceu sem muito programar. Cinco homens dando sopa, vai no vizinho de cima e busca uma enxada, no outro vizinho cata uma cerca, nós moças dávamos palpites e cuidávamos de detalhes, e no final do dia tava tudo pronto, só faltava semear.

Lá pelas tantas nos tocamos que era dia dos mortos, e pra aproveitar a sacada, sem cerimônia, deitamos nas covas, e tiramos uma fotos. Lembro até que rolou uma discussão sobre postar ou não no facebook, uns achando que podia soar como desrespeito... Eu não lembro como foi o desfecho da história, mas a sensação de deitar na terra remexida era tão boa que ficamos por ali em savasana por uns longos e deliciosos minutos.

A morte é tão básica e natural como o nascimento, mas é muito raro ser tratada com tal naturalidade, o que impede de que ao longo da vida as pessoas também não se permitam morrer e renascer, morrer e renascer, quantas vezes forem necessárias. 

E acreditem, são." 


*







*shavasana, a postura do defunto. o Hatha Yoga Pradipika ensina a "permanecer estendido no solo com o rosto voltado para cima, como um morto (shava ou sava). este asana elimina o cansaço ocasionado por outros asanas e proporciona descanso à mente". no Gheranda Samhita essa postura é considerada o asana mais importante e o mais simples. pode-se, no entanto, também considerar como o mais difícil, pois requer total relaxamento dos músculos e da mente. B.K.S Iyengar diz que em shavasana "treinamos e nos educamos para a arte da entrega, aprendendo a silenciar e aquietar-se". e questiona - "afinal, o que é a morte senão o estado de não existência e desapego dos estímulos sensoriais, ambos estados que experimentamos em shavasana? é como se fosse um treinamento para a morte, uma entrega".

** texto e foto de autoria da jornalista Caroline Cesar, extraído do blog Expressinha, do jornal de minha cidade, o Página 3 (no link do blog, o texto traz mais fotos do dia).

A morte é um dia que vale a pena viver




* 








* a morte é um tema que me é caro e do qual eu não consigo absolutamente resistir. por ser tabu na nossa cultura, reservo o Dia dos Mortos para postar por aqui algumas das minhas descobertas, como o trabalho da médica Claudia Quintana Arantes que acrescentou e desembaraçou muito fios ao novelo de minhas reflexões sobre o assunto.


** [são 18 minutos de vídeo que valem cada segundo do seu tempo. assim como os 9 minutos deste outro aqui: uma entrevista com o escritor dinamarquês Knud Romer, idealizador do documentário Uma folha cai ao céu, sobre a morte de seu pai e a solidão dos idosos no primeiro mundo]

 

What come is better that what came before



"Para os nossos vizinhos;

Que belo outono! Tudo está dourado e suave como a incrível luz que agora brilha sobre a água que nos rodeia.

Lou e eu passamos muito tempo aqui nos últimos anos, e apesar de sermos pessoas da cidade este é o nosso lar espiritual.

Na semana passada eu prometi a Lou que o tiraria do hospital e voltaríamos para casa em Springs.

Lou era um mestre de tai chi e passou seus últimos dias aqui, feliz e deslumbrado com a beleza, o poder e suavidade da natureza. Ele morreu na manhã de domingo olhando para as árvores e fazendo o famoso 21, um movimento de tai chi com apenas suas mãos de músico atravessando o ar.

Lou era um príncipe e um lutador, e eu sei que suas canções de dor e beleza do mundo vão encher muitas pessoas com a incrível alegria que ele tinha pela vida. Vida longa à beleza que descende e atravessa por e sobre todos nós.

Laurie Anderson - sua amada esposa e eterna amiga"

*






* obituário escrito para The East Hampton Star - hebdomadário da localidade de Springs (New York), pela esposa de Lou Reed, a também artista Laurie Anderson (que esteve romanticamente e criativamente ligada à Reed, desde o final dos anos 90).

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera…quebra-me o encanto!

[Florbela Espanca, À Morte In: Reliquiae]
 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

La culpa de morirse es de quien se muere


"Por eso la muerte es tan magnífica, porque no existe, porque sólo muere aquel que no vivió".





Frida Kahlo




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* "fazemos o que podemos com o que não podemos e não podemos mais fazer nada. importa muito pouco, na verdade, que falemos tanto, pensemos tão alto, se cá no raso nos afogamos com os mortos, porque não vemos mais amor entre os vivos". Leonardo Marona