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sábado, 30 de novembro de 2013

Você tem, exatamente, três mil horas pra parar de me beijar [3]

 
"É incrível como um beijo pode mudar uma vida." Alda Merini


e afinal é isto e só isto
será? que seja, quero
dias todos assim, assim
boca, assim duas mãos
seguras por beijos e medo
da luz um corpo amanhecido
de muito mudas as palavras
e tão dentro dos teus olhos
vemos tudo o que não era
e somos o que não fomos
porque adormecemos inteiros
por dentro de dentro de nós
ao fundarmos um nosso verbo.

Nuno Camarneiro


"a morte é menos que teu beijo" Leminski


 
"O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca? Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?). Na boca das meninas, e é lá que eles estão suspensos, invisíveis."  

Carlos Drummond de Andrade

Dá-me um beijo ou a morte. Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
Para quem a suporte.

Mas o mar e os montes... Isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.

Mar e montes teus beijos, meu amor.
sobre os meus férreos dentes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.
Mar e montes teus beijos, meu amor!...

Fernando Ferreira Echevarría

A lembrança dos teus beijos
Inda na minh’alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste.
Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desaparecido
Revive numa saudade! 

Florbela Espanca

"Uma língua sobre a outra, outra língua sob uma. E as duas línguas sem saberem se existe vida para além do toque. Todos os beijos são dois corpos inteiros por dentro de duas línguas." Pedro Chagas Freitas

"O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai!"  


Chico Buarque

Fui dormir pensando nisso
passei a noite acordado com a ideia fixa
agora está decidido: vou me mudar!
pros teus lábios
quero morar neles
e instaurar um domingo morno e preguiçoso a cada beijo
[muita. muita vontade de morar no teu beijo]
E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?

E me respondias, voz trêmula:
estou nascendo agora.

E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?

E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.
Mia Couto

"E Bjs. Odiava os Bjs. Qualquer dia, dissera já a Gracinha, dou-te mesmo Bjs em vez de beijos: beijo-te sem vogais. Ela acusara-o de ser antiquado. Não, não se é antiquado só porque se quer beijar e ser beijado por extenso." João Aguiar

Não pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toquem, e as bocas
e a pele falem seus líquidos desejos.
Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se amor e vida
fossem um discurso
de impronunciáveis emoções.

Affonso Romano de Sant’Anna


*









 
* dedicado aos que acreditam que o beijo, enquanto linguagem universal, contém todas as palavras que merecem ser ditas. 


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Tanto mar, tanto mar [2]



"Há mar e mar, há ir e voltar..." Alexandre O’Neill

 "Metade de mim é feita de maresia." Sophia de Mello Breyner





"Vinham ondas e ondas e mais ondas rebentar dos teus nos meus olhos."  Joaquim Manuel Magalhães


  "É sempre uma história de amor:
a árvore
que se afeiçoa ao pássaro
o sol
que se liga à água
os olhos
que se prendem ao mar."

Gil T. Sousa
 
"As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só p'ra mim."

Sophia Mello Breyner Andresen



"Agora sei que nosso mundo não é mais permanente do que uma onda subindo no oceano. Quaisquer sejam nossas lutas e triunfos, qualquer seja o modo como os experimentamos, em breve todos fundem-se numa coisa só, como a tinta aguada de uma aquarela num papel." Arthur Golden

"Eu queria ser o mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!"
Florbela Espanca

 "O mar é o habilidoso desenhador de ausências." Mia Couto


"E se eu te disser mais, disser que o nunca termina parece muito com a vez que vimos um cão correndo na beira, quando o mar virou ouro molinho,
todo derramado, respingando dourado aqui e ali, quando vimos o fogo junto com a água, o acima com o embaixo, o lá longe com o cá perto, quando nos vimos com patas e vimos o cão com pernas, tudo misturado, quando vimos o acontecer tão imenso que o esticar nem sequer existia, 
absurdo e natural, assim." Isadora Krieger


"Dai-me Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço." Gabriela Mistral

  
"Meu coração tropical está coberto de neve, mas
Ferve em seu cofre gelado
E a voz vibra e a mão escreve: MAR

Vou partir a geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar, procurar o mar..."


João Bosco






"O mar é uma essência líquida de rapariga." Friedrich Novalis
 *











* beira mar. as ondas vêm e vão. aguça os sentidos e ouve. o mar. e eu. o mar. e eu. o mar e eu. as vagas quebram no final do e. o u se desmancha na areia, rolando. virando v, virando c, virando n, virando á g u a. (onde começa um e acaba o outro?)


'
Quem me quiser há-de saber as conchas
 a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas 
e a verde tentação de naufragar. 

Quem me quiser há-de saber os medos

que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma

em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente."

Rosa Lobato de Faria

** Isadora Krieger é natural de Balneário Camboriú e lançou em 2013 seu primeiro livro, Memórias da Bananeira.
*** a pintura ultrarealista é de autoria de Ran Ortner

sábado, 2 de novembro de 2013

What come is better that what came before



"Para os nossos vizinhos;

Que belo outono! Tudo está dourado e suave como a incrível luz que agora brilha sobre a água que nos rodeia.

Lou e eu passamos muito tempo aqui nos últimos anos, e apesar de sermos pessoas da cidade este é o nosso lar espiritual.

Na semana passada eu prometi a Lou que o tiraria do hospital e voltaríamos para casa em Springs.

Lou era um mestre de tai chi e passou seus últimos dias aqui, feliz e deslumbrado com a beleza, o poder e suavidade da natureza. Ele morreu na manhã de domingo olhando para as árvores e fazendo o famoso 21, um movimento de tai chi com apenas suas mãos de músico atravessando o ar.

Lou era um príncipe e um lutador, e eu sei que suas canções de dor e beleza do mundo vão encher muitas pessoas com a incrível alegria que ele tinha pela vida. Vida longa à beleza que descende e atravessa por e sobre todos nós.

Laurie Anderson - sua amada esposa e eterna amiga"

*






* obituário escrito para The East Hampton Star - hebdomadário da localidade de Springs (New York), pela esposa de Lou Reed, a também artista Laurie Anderson (que esteve romanticamente e criativamente ligada à Reed, desde o final dos anos 90).

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera…quebra-me o encanto!

[Florbela Espanca, À Morte In: Reliquiae]
 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Cortina de Fumaça [3]

Diane Kruger


Barack Obama


David Bowie


Adele


Scarlett Johansson

Carla Bruni


Javier Barden


Monica Bellucci

Robert Downey Jr.


Kate Moss


Daniel Craig


Marion Cotillard


[o deus ruivo] Michael Fassbender


Rita Lee [outra, com fogo nas ventas]

Helena Bonham Carter


Tom Waits


Sharon Stone

Keira Knightley


...

Amor – chama, e, depois, fumaça…
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa…

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor – chama, e depois, fumaça…

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa…

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor – chama, e depois, fumaça…

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa…

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder
Amor – chama, e depois, fumaça…

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?…)
O fumo vem, a chama passa…

A chama queima… O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas… tem de ser…
Amor?… – chama, e depois, fumaça:

O fumo vem, a chama passa.


Chama e Fumo, Manuel Bandeira [Teresópolis, 1911]



...


"Invoco o nosso sonho/E ele é, ó meu Amor, pelos espaços/Fumo leve que foge entre os meus dedos." Florbela Espanca



*







*Cortina de Fumaça, o primeiro, é dos posts mais acessados deste blog no último ano, com visualizações de todos os cantos do planeta. Por não nutrir nenhuma simpatia pelos "politicamente corretos" (e muito menos pelos políticos ou corretos) desdobro o tema aqui (como já o fiz, aqui). Em tempo: continuo sem fumar. E invejando os fumantes. Muito. Muito.

domingo, 3 de abril de 2011

Intensa


O meu mundo não é como o dos outros,
Quero demais, exijo demais,
Há em mim uma sede de infinito,
Uma angústia constante que nem eu mesma compreendo,
Pois estou longe de ser uma pessimista;
Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada.
Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade...
sei lá de quê!


Florbela Espanca (1894-1930)




* imagem: Salvador Dali, Le phénomène de l’extase