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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Sabedoria de rua [2]




 




 







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* há tanta sabedoria espalhada pelos muros das cidades... e como sou mulher de palavras - Sabedoria de Rua agora é série fixa (e fixe) aqui no blog! esta edição, totalmente em português, foi parcialmente patrocinada pelo Fotos de Rua, Adelaide Ivanova e Porque nem as paredes da rua são portas fechadas.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Fluidez

"Tudo se resume a não se apegar aos seus pensamentos e sentimentos.
Não significa parar de pensar ou sentir. Isso seria impossível. O que eu sugiro é a percepção de que os pensamentos e as emoções são apenas ideias e sensações fluindo por nós. Quando olhamos para o céu, observamos nuvens fluindo através dele - aproximando-se, distanciando-se ou se dissolvendo. Algumas parecem tomar a forma de animais, faces, objetos. Não há a mínima possibilidade de segurar ou agarrar-se a qualquer uma das formas, ou mesmo a qualquer uma das nuvens. Só nos é possível observá-las e vê-las flutuar. Nossas mentes são da mesma forma. Pense que elas são como um vasto céu claro. Nossos sentimentos, emoções e pensamentos são como nuvens. Eles flutuam, aproximando-se e tomando forma, para em seguida, afastarem-se. O segredo é não se apegar a eles. Somente quando nos apercebemos disto é que nos tornamos disponíveis para controlar mente e corpo, ao invés de sermos controlado por eles.  

Esta prática também sugere que não devemos tratar nossos pensamentos com seriedade excessiva e a rir deles (ou simplesmente ignorá-los) quando sentimos que não somos nós, mas nossos egos no controle. É assim que criamos a possibilidade de construção de nossa verdadeira liberdade e paz interior."

Bruce Lee


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* hoje é o aniversário de uma amiga que fiz com este blog - através de Bruce Lee, de quem ela é fã. explico: foi por esta imagem que ela chegou até aqui e nos conhecemos. é em homenagem a ela, como uma espécie de presente, que este vídeo deu a pinta hoje por aqui. parabéns, Andréa!

** e eu, que nutria por Lee somente uma leve curiosidade, acabei por descobrir que temos, veja só, um ponto em comum: a paixão por exercícios abdominais - "a esposa de Lee, Linda Emery, afirma que o seu falecido marido era um fanático por treinos abdominais. em qualquer momento do dia podia ser visto realizando sit-ups, abdominais, movimentos de cadeira romanos, elevações de perna, e v-ups. Bruce acreditava que os músculos abdominais eram, dentro da estrutura muscular os mais importantes, pois todo movimento humano requer algum envolvimento abdominal". nossa semelhança, entretanto, acaba aqui, já que "de todas as partes do corpo que Bruce Lee desenvolveu, os seus músculos abdominais eram os mais espetaculares: sólidos como pedra ao toque, profundamente cortados e altamente definidos" [da wikipedia]. é por detalhes assim que se diferenciam os mitos dos muitos...  

quinta-feira, 11 de abril de 2013

De todas as mentiras, a literatura é a minha favorita

 
Na livraria, o cliente deposita no caixa uns quantos livros e desabafa para o jovem atrás do balcão:
 
- nem sei porque continuo vindo aqui: quanto mais leio menos convicções tenho.
- é?
- hum-hum. há muito que perdi a motivação para ler...
- não diga!
- deixei de ter convicções. "só tem convicções aquele que nada aprofundou".
- ...
- ... "felizes são os ignorantes". concorda?
- …
- concorda? 
- ...
- ei, por onde andas, com este olhar perdido?
- opa! desculpe. aqui mesmo… pensando apenas no que me acabou de dizer.
- e? alguma conclusão?
- nada de importante ou novo para um homem letrado como o senhor... no entanto, a ser verdade o que diz, não acha que se veria por aí muito mais gente feliz?

 

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* história contada por Jaime Bulhosa, no blog da Livraria Pó dos Livros (de Lisboa) e reescrita por mim. ** na imagem, o cineasta François TruffautThe Compleat Liar, 1977. *** [de todas as mentiras, a felicidade é a única que não desisti de perseguir...]

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O amor social


"Amor e política são duas grandes formas de engajamento social. Política é entusiasmo com o coletivo; amor, entre duas pessoas. O amor é o extrato, a mínima forma do comunismo".

Alain Badiou, em entrevista ao The Guardian


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* e houve boatos que o comunismo estava na pior... ["quanto mais amor faço, tanto mais realizo a revolução. quanto mais faço a revolução, mais vontade tenho de fazer amor"]. ** a entrevista com Alain Badiou é repleta de citações primorosas, recomendo a leitura!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Da série Verdades Indissolúveis - sobre o essencial, tão escondido na obviedade ao nosso redor


Há dois peixes jovens nadando ao longo de um rio, e eles por acaso encontram um peixe mais velho nadando na direção oposta, que pisca para eles e diz, "Bom dia, rapazes, como está a água?". E os dois peixes jovens continuam nadando por um tempo, e então um deles olha pro outro e diz, 
"Que diabos é água?".

Se você está preocupado pensando que eu estou planejando me apresentar aqui como o peixe velho e sábio explicando o que é água, por favor não fique. Eu não sou o peixe velho e sábio. O ponto imediato da história dos peixes é que as realidades mais óbvias, ubíquas e importantes são frequentemente as mais difíceis de se ver e discutir. Declarada como uma frase, é claro, isso é só um lugar-comum banal – mas o fato é que, nas trincheiras diárias da existência adulta, lugares-comuns banais podem ter importância de vida ou morte.
É claro que o principal requerimento de discursos de formatura como esse é que eu devo falar sobre o significado da sua educação de Ciências Humanas, tentar explicar por que o diploma que você acabou de receber tem algum valor humano real ao invés de apenas compensação material. Então vamos falar do maior clichê do gênero do discurso de formatura, que é que a educação de ciências humanas não tem o propósito de te encher de conhecimento, mas sim de ensiná-lo a pensar. Aqui vai outra historinha didática:
Dois caras estão sentados, em um balcão de bar, em uma região remota do Alaska. Um dos caras é religioso, o outro é ateu, e os dois estão discutindo sobre a existência de Deus com a intensidade especial que vem depois da quarta cerveja. E o ateu diz: "Olha, não é como se eu não tivesse razões verdadeiras pra não acreditar em Deus. Não é como se eu nunca tivesse experimentado essa coisa toda de Deus e oração. Mês passado uma nevasca terrível me pegou longe do acampamento, eu tava completamente perdido, e não conseguia ver nada, e tava 25 graus negativos, então eu tentei: eu caí de joelhos na neve e gritei 'Ó Deus, se existir um Deus, eu tô perdido nessa nevasca, e eu vou morrer se você não me ajudar.'" E agora, no bar, o cara religioso olha pro ateu confuso. "Bem, então você deve acreditar agora", diz ele. "Afinal, aqui está você, vivo." O ateu rola os olhos. "Não, cara, o que aconteceu é que dois esquimós por acaso apareceram por lá e me mostraram o caminho do acampamento."
É fácil fazer uma análise literária dessa história: A mesma exata experiência pode significar duas coisas completamente diferentes para duas pessoas completamente diferentes, considerando os diferentes modelos de crença e as diferentes formas de construir significado de uma experiência. Porque nós valorizamos a tolerância e diversidade de crença, não queremos na nossa análise literária afirmar que a interpretação de um cara é verdadeira e a interpretação do outro cara é falsa ou ruim. O que não tem problema, só que nós também acabamos nunca falando sobre de onde vêm esses modelos e crenças diferentes.
Quero dizer: de onde eles vêm de dentro dos dois caras? É como se a orientação de mundo mais básica de uma pessoa e o significado de sua experiência, fossem de alguma forma simplesmente impressos nos genes, como altura ou tamanho do sapato – ou automaticamente absorvidos da cultura, como linguagem. Como se a forma em que construímos significado não fosse uma questão de escolha pessoal e intencional. Além disso, há toda a questão de arrogância. O cara não-religioso está completamente certo na sua rejeição da possibilidade de que os esquimós tiveram qualquer coisa a ver com sua oração e pedido de ajuda. Verdade, existem também muitas pessoas religiosas que parecem arrogantes e certas de suas próprias interpretações. Elas provavelmente são muito mais repulsivas do que os ateus, pelo menos para a maioria. Mas o problema do religioso dogmático é exatamente o mesmo do descrente da história: certeza cega, uma mente fechada que representa um aprisionamento tão completo que o prisioneiro nem sabe que está encarcerado.
Então, ensinar como pensar significa: ser um pouco menos arrogante; ter um pouco de consciência crítica sobre mim e minhas certezas. Porque uma grande porcentagem das coisas sobre as quais eu costumo automaticamente ter certeza é, na verdade, totalmente errada ou ilusória. Eu aprendi isso do jeito difícil, e eu aposto que vocês também vão.
Aqui vai um exemplo de algo completamente errado que eu costumo automaticamente ter certeza: tudo na minha experiência apóia minha crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, a pessoa mais real, vívida e importante que existe. Nós raramente falamos sobre esse tipo de egocentrismo natural e básico, porque ele é tão socialmente repulsivo, mas é basicamente o mesmo para todos nós, no fundo. É a nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento. Pense nisso: você nunca teve uma experiência da qual você não foi o centro absoluto. O mundo como nós o vemos está bem na sua frente, ou atrás de você, ou à sua esquerda ou à sua direita, na sua TV, no seu monitor, ou o que for. Os pensamentos e sentimentos de outras pessoas precisam ser comunicados pra você de alguma forma, mas os seus próprios são tão imediatos, urgentes, reais… você entendeu.
Mas por favor, não se preocupe pensando que eu estou me preparando pra pregar pra você sobre compaixão ou desprendimento ou as supostas “virtudes”. Isso não é uma questão de virtude, é uma questão de eu escolher fazer o trabalho de alterar ou me livrar da minha configuração padrão natural, que é ser profundamente e literalmente egocêntrico, e ver e interpretar tudo pela lente do eu. Pessoas que conseguem ajustar sua configuração padrão natural dessa forma são geralmente descritas como “bem ajustadas”, o que eu lhe sugiro que não é um termo acidental.
Como vocês devem saber, é extremamente difícil se manter alerta e atento, ao invés de se hipnotizar pelo monólogo constante dentro da sua próprio cabeça (pode estar acontecendo agora). Vinte anos depois da minha gradução, eu cheguei à conclusão de que o clichê sobre a educação de Humanas sobre te ensinar como pensar é na verdade uma simplificação de uma idéia muito mais profunda e séria: aprender como pensar significa como exercer controle sobre como e o que você pensa. Significa estar ciente e consciente o suficiente para escolher no que você presta atenção e escolher como você constrói significado de uma experiência. Porque se você não exercitar esse tipo de escolha na vida adulta, você está lascado.
Pense no velho clichê sobre a mente ser "um ótimo servo mas um terrível mestre." Esse, como vários outros clichês, tão bobo e broxante na superfície, na verdade expressa uma grande e terrível verdade. Não é mera coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre atiram na cabeça. Eles atiram no terrível mestre. E a verdade é que a maioria desses suicidas estão mortos muito antes de puxarem o gatilho. E eu sugiro que esse é o verdadeiro valor da educação de Humanas: como evitar viver sua confortável e próspera vida adulta morto, inconsciente, um escravo da sua cabeça e do padrão natural da sua configuração de ser unicamente, completamente, imperialmente sozinho, dia após dia. Isso pode soar como hipérbole ou baboseira abstrata. Vamos deixar mais concreto.
O fato é que vocês jovens graduados não fazem idéia do que realmente significa "dia após dia". Há por acaso partes enormes da vida adulta americana sobre as quais ninguém fala nesses discursos de formatura. Uma dessas partes envolve tédio, rotina e frustrações triviais. Seus pais vão saber muito bem do que eu estou falando.
Por exemplo, digamos que é um dia comum, e você acorda de manhã, e você vai pro seu trabalho exigente, e você trabalha duro por nove ou dez horas, e no fim do dia você está cansado e estressado, e tudo que você quer fazer é ir pra casa e jantar e talvez relaxar por algumas horas e então cair na cama cedo porque você tem que acordar no dia seguinte e fazer tudo de novo. Mas aí você lembra que não tem comida em casa – você não teve tempo de fazer compras essa semana, por causa do seu trabalho exigente – e então agora, depois do trabalho, você tem que entrar no seu carro e dirigir até o supermercado. É o fim do expediente, e o tráfego está horrível, então chegar no lugar demora muito mais do que deveria, e quando você finalmente chega lá, o supermercado está muito cheio, porque, é claro, é a hora do dia que todas as outras pessoas com emprego também tentam espremer um tempo pra fazer compras, e a iluminação da loja é fluorescente e medonha, e no som toca algum pop corporativo ou Muzak que destrói a alma, e é basicamente o último lugar que você quer estar. Mas você não pode entrar e sair rapidamente: você tem que vagar pelos corredores lotados dessa loja enorme e exageradamente iluminada para achar as coisas que você quer, e você tem que manobrar o seu carrinho de compras enferrujado por todas essas outras pessoas cansadas e apressadas que também empurram carrinhos, e é claro que também estão lá as pessoas idosas se movendo num ritmo glacial e as pessoas espaçosas e as crianças que bloqueiam os corredores e com as quais você tenta ser educado quando pede para elas deixarem você passar – e finalmente, você pega tudo que precisa pro jantar, só que agora não tem caixas abertos suficientes apesar de ser a correria do fim do dia, então a fila do caixa está incrivelmente longa, o que é estúpido e irritante, mas você não pode despejar sua fúria na moça agitada trabalhando no caixa, que está sobrecarregada num emprego cujo tédio diário e insignificância ultrapassam a imaginação de qualquer um de nós nessa faculdade prestigiada.
De qualquer forma, você finalmente chega na frente do caixa, e paga pela sua comida, e espera receber seu cartão autenticado pela máquina, e então desejam-lhe "um bom dia" numa voz que é a absoluta voz da morte, e então você tem que levar seus sacos de plástico frágil no seu carrinho através do estacionamento cheio, esburacado e sujo, e você tenta colocar os sacos no seu carro de forma que tudo não caia das sacolas e role pelo seu porta-malas no caminho para casa, e então você tem que dirigir para casa no tráfego lento de hora do rush, cheio de SUVs e picapes, etc, etc.
O que é frustrante nesse tipo de situação é quando entra o trabalho de escolher. Porque os engarrafamentos e corredores lotados e longas filas do caixa me dão tempo para pensar, e se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar e no que prestar atenção, eu vou ficar enfezado e miserável toda vez que eu for comprar comida, porque minha configuração padrão natural é a certeza de que situações como essa são na verdade só sobre mim, sobre minha fome e meu cansaço e meu desejo de chegar em casa, e vai parecer que todos os outros estão no meu caminho, e quem é esse povo, mesmo? E olha o quão repulsivo é boa parte deles, e como aqui na fila do caixa eles parecem estúpidos, olhos mortos, não-humanos, como vacas, ou o quão irritante e rude são as pessoas que estão falando alto no celular no meio da fila, e olha como isso é profundamente injusto: eu trabalhei duro o dia inteiro e estou faminto e cansado e não posso nem chegar em casa para comer e relaxar por causa de todo esse maldito povo idiota.
Ou, se eu estou na forma mais socialmente consciente da minha configuração padrão, eu posso passar o tempo no engarrafamento do fim do dia ficando irritado e enojado com todos esses SUVs e picapes e caminhonetes enormes, idiotas, que bloqueiam pistas, queimando e desperdiçando seus tanques egoístas de 40 galões de gasolina, e eu posso considerar o fato de que adesivos religiosos ou patrióticos costumam estar pregados nos veículos maiores e mais egoístas, dirigidos pelos motoristas mais feios, imprudentes e agressivos, que geralmente estão falando no celular enquanto cortam os outros pra avançar 10 metros idiotas num engarrafamento, e eu posso pensar sobre como os filhos dos nossos filhos vão nos desprezar por gastar todo o combustível do futuro e provavelmente estragar o clima, e quão mimados e estúpidos e nojentos nós somos, e como a sociedade consumista moderna é um saco, e assim por diante. Você entendeu.
Se eu escolher pensar assim na loja ou na rua, tudo bem, muitos de nós pensam – só que pensar dessa forma costuma ser fácil e automático e não precisa ser uma escolha. É a minha configuração padrão natural. É a forma automática de como eu vivo as partes chatas, frustrantes e lotadas da vida adulta quando eu estou operando na crença automática, inconsciente de que eu sou o centro do mundo, e que minhas necessidades imediatas e sentimentos são o que deve determinar as prioridades do mundo.
A questão é que, é claro, há formas completamente diferentes de se pensar sobre esses tipos de situações. Nesse tráfego, todos esses veículos parados no meu caminho, não é impossível que algumas dessas pessoas nas caminhonetes já estiveram em acidentes de carro horríveis no passado e agora acham dirigir tão aterrorizante que seus terapeutas praticamente ordenaram que elas comprem uma caminhonete grande e pesada para que se sintam seguras o suficiente para dirigir novamente. Ou que a picape que acabou de me cortar talvez esteja sendo dirigida por um pai cujo filho esteja ferido ou doente no banco de passageiros, e ele está tentando levar essa criança pro hospital, e ele está numa pressa maior e mais legítima que a minha – ou seja, sou eu que estou no caminho dele. Ou eu posso me forçar a considerar a possibilidade de que todo mundo na fila do supermercado está tão entediado e frustrado quanto eu, e que algumas dessas pessoas tem uma vida mais difícil, tediosa e dolorosa que a minha.
Novamente, por favor não ache que eu estou dando conselho moral, ou que estou dizendo que você deve pensar dessa forma, ou que qualquer um espere que você automaticamente faça isso. Porque é difícil. Requer determinação e esforço, e se você é como eu, alguns dias você não vai conseguir fazê-lo, ou simplesmente não vai querer.
Mas na maioria dos dias, se você está ciente o bastante para se dar uma escolha, você pode escolher outra forma de olhar para essa senhora obesa, de olhos mortos e maquiagem exagerada, que acabou de gritar com o filho na fila do supermercado. Talvez ela não seja assim, geralmente. Talvez ela esteja acordada três noites seguidas segurando a mão do seu marido que está morrendo de câncer ósseo. Ou talvez essa mesma senhora seja a atendente do departamento de veículos motorizados, que ontem mesmo ajudou a sua esposa resolver algum problema chato através de um pequeno ato de bondade burocrática.
É claro, nada disso é provável, mas também não é impossível. Só depende do que você quer considerar. Se você tem certeza automática de que sabe o que a realidade é, e você está operando na sua configuração padrão, então você, como eu, provavelmente não vai considerar possibilidades que não são irritantes ou miseráveis. Mas se você realmente aprender como prestar atenção, então você saberá que existem outras opções. Estará dentro da sua capacidade vivenciar uma situação lotada, lenta e quente como não só significante, mas sagrada, uma chama como a que criou as estrelas: amor, companheirismo, e a unidade mística de todas as coisas, no fundo.
Não que essa coisa mística seja necessariamente verdade. A única coisa que é Verdade com v maiúsculo é que você decide como vai tentar vê-la.
Essa, eu afirmo, é a verdadeira educação, a de aprender como ser bem ajustado. Você vai conscientemente decidir o que tem significado e o que não tem. Você decide o que venerar.
Porque aqui está algo que é estranho mas real: nas trincheiras diárias da vida adulta, não existe algo como o ateísmo. Não existe "não venerar". Todo mundo venera. A única escolha que temos é o que venerar. E a razão convincente para talvez escolher venerar algum tipo de deus ou coisa espiritual – seja Jesus Cristo, Alá, ou a Deusa Mãe dos Wicca, ou as Quatro Nobres Verdades, ou algum conjunto de princípios éticos invioláveis – é que praticamente qualquer outra coisa que você venerar vai te comer vivo.
Se você venera dinheiro e coisas, se é aí que você encontra significado verdadeiro na vida, então você nunca terá o suficiente. É a verdade. Venere o seu corpo e beleza e atração sexual, e você sempre vai se sentir feio. E quando o tempo e idade começarem a aparecer, você vai morrer um milhão de mortes antes de finalmente te enterrarem. De certa forma, nós já sabemos dessas coisas. Elas já foram codificadas em mitos, provérbios, clichês, epigramas, parábolas – o esqueleto de toda grande história. O truque é manter a verdade evidente na consciência diária...
Venere o poder, e você vai acabar se sentindo fraco e medroso, e você vai precisar de ainda mais poder sobre os outros para entorpecer o seu próprio medo. Venere seu intelecto, ser visto como esperto, e você vai acabar se sentindo estúpido, uma fraude, sempre à beira de ser descoberto. Mas a coisa insidiosa sobre essas formas de veneração não é que elas são más ou perversas – é que elas são inconscientes. Elas são a configuração padrão. São o tipo de veneração em que você gradualmente se acomoda, dia após dia, ficando mais e mais seletivo sobre o que você vê e como você mede valor sem jamais estar totalmente ciente do que está fazendo.
E o suposto mundo real não irá te desencorajar de operar na sua configuração padrão, porque o suposto mundo real de homens e dinheiro e poder cantarola alegremente numa piscina de medo e raiva e frustração e desejo e veneração de si mesmo. Nossa própria cultura atual canalizou essas forças de formas que geraram extraordinária riqueza e conforto e liberdade pessoal. A liberdade de sermos senhores dos nossos pequenos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, sozinhos no centro de toda a criação. Esse tipo de liberdade tem vários méritos. Mas é claro que há vários tipos diferentes de liberdades, e no grande mundo lá fora de querer e conseguir, você não irá ouvir muito sobre o tipo mais precioso. O tipo realmente importante de liberdade envolve atenção e consciência e disciplina, e ser capaz de realmente se importar com outras pessoas e se sacrificar por elas repetidamente numa miríade de formas triviais e pouco excitantes.
Essa é a verdadeira liberdade. Isso é ser educado, e saber como pensar. A alternativa é a inconsciência, a configuração padrão, a corrida maluca, a constante e torturante sensação de ter tido, e perdido, alguma coisa infinita.
Eu sei que essas coisas não soam divertidas ou joviais ou grandiosamente inspiradoras como um discurso de formatura deve soar. O que isso é, até onde eu sei, é a Verdade com v maiúsculo, com uma porção de sutilezas retóricas removidas. Você está, é claro, livre para pensar disso o que você quiser. Mas por favor não o rejeite como algum sermão hipócrita. Nada disso é realmente sobre moralidade ou religião ou dogma ou questões fantasiosas sobre vida após a morte. A Verdade com v maiúsculo é sobre vida antes da morte. É sobre o valor real de educação real, que não tem quase nada a ver com conhecimento, e tudo a ver com simples consciência – consciência daquilo que é real e essencial, tão escondido na obviedade ao nosso redor, o tempo todo, que nós temos que continuar relembrando repetidamente:

"Isto é água."

"Isto é água."

É inimaginavelmente difícil fazer isso, manter-se consciente e vivo no mundo adulto dia após dia. O que significa que mais um grande clichê acaba sendo verdade: sua educação realmente é o trabalho de uma vida toda. Eu lhes desejo muito mais que sorte.


David Foster Wallace, Isto é Água, in Ficando longe do fato de estar meio que longe de tudo



*







* um dos escritores mais admirados de sua geração, o americano David Foster Wallace suicidou-se em 2008, aos 46 anos. este texto é um discurso de 2005, escrito e proferido pelo autor, para os formandos do Kenyon College, onde também lecionava.
** update - recebi a dica e repasso: a gravação do discurso, com a voz e as pausas de Wallace; assim como as risadas e o silêncio da audiência.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Polifonia


Quando Deus vacila em mim
sem adornos, ataduras, sem outro pretexto
Quando o sinto a ponto de perder-se
na folhagem a meu lado
compreendo o grande mistério
uma lei face à qual as palavras
não servem

Deus abraça o meu vazio profundamente grato
Abraça a imundície de todos os seus filhos
e continuamente declara-os bem aventurados

Pois Deus sendo casto deixa-se consumir
com a paixão insultuosa
dos devassos


José Tolentino de Mendonça, em Estação Central


...


O risco implícito em todo o grande amor é o de abafar a polifonia da existência. 
Polifonia é termo que nasce de um conjunto de coisas completas e não diminuídas. Não é filha de subtrações mas de adições. E é o oposto da monotonia, que é viver em um só tom, um só amor, numa só rotina.
Buscarmos incessantemente a música variada dos dias e as muitas dimensões que se nos oferecem a cada oportunidade é um caminho de alegria e cumprimento pessoal que não é negado por nenhuma forma amorosa que aceitemos abraçar.  
Quero dizer que Deus e a sua eternidade desejam ser amados do fundo do coração, mas sem que o amor terreno seja prejudicado ou debilitado; algo como um cantus firmus, em relação ao qual as outras vozes da vida formam o contraponto.
O homem é capaz de amar ilimitadamente - tão amplamente e variadamente que nem mesmo Deus é capaz de cobrir todas estas modulações. O amor de Deus não responde a todas as dimensões do coração do homem.
Existe uma extensão das capacidades amorosas do homem, para a qual Deus não pretende ser o epílogo único. "Amarás a Deus sobre todas as coisas" não significa: ama somente Deus, reservando todo o teu coração para ele, mas: ama-o com totalidade, sem meias medidas. Assim, devemos, de igual modo, amar: com todo o coração, sem reservas. A totalidade do coração não significa a exclusividade. 
Não é através da diminuição do humano que em nós cresce o divino. A verdade consiste justamente no contrário: mais humanidade equivale a mais divindade. Não existe, pois, contradição ou rivalidade entre amor humano e amor a Deus. 
Na próxima vez que vires um fiel à porta da igreja, não o olhe com um olhar superficial ou distraído, mas como um ser que vive uma grande história de amor - a história de um coração de carne a que Deus fez uma proposta impossível.


Ermes Ronchi, na introdução de Os beijos não dados/Tu és a beleza




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* a fé envergonha-se de ser pronunciada por minha boca - mas eu sigo acreditando que um dia ela se revelará em mim como uma sinfonia de Bach, ouvida através de meus poros, feito perfume dos anjos. - Senhor, eu não sou digna que entreis em minha morada, mas fazei com que eu sinta Sua palavra e eu serei salva.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Maioridade


Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
Ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?

Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?

Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?

Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.

 
Que vou ser quando crescer?

Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.

Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer. 




Carlos Drummond de Andrade, Verbo Ser




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* não é preciso crescer para ser. crescer é que, muito infelizmente, vai nos diminuindo...