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quinta-feira, 11 de abril de 2013

De todas as mentiras, a literatura é a minha favorita

 
Na livraria, o cliente deposita no caixa uns quantos livros e desabafa para o jovem atrás do balcão:
 
- nem sei porque continuo vindo aqui: quanto mais leio menos convicções tenho.
- é?
- hum-hum. há muito que perdi a motivação para ler...
- não diga!
- deixei de ter convicções. "só tem convicções aquele que nada aprofundou".
- ...
- ... "felizes são os ignorantes". concorda?
- …
- concorda? 
- ...
- ei, por onde andas, com este olhar perdido?
- opa! desculpe. aqui mesmo… pensando apenas no que me acabou de dizer.
- e? alguma conclusão?
- nada de importante ou novo para um homem letrado como o senhor... no entanto, a ser verdade o que diz, não acha que se veria por aí muito mais gente feliz?

 

*










* história contada por Jaime Bulhosa, no blog da Livraria Pó dos Livros (de Lisboa) e reescrita por mim. ** na imagem, o cineasta François Truffaut lê The Compleat Liar, 1977. *** [de todas as mentiras, a felicidade é a única que não desisti de perseguir...]

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Ler é sexy [5]




 


...mas um livro, por baixo do colchão
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando
Carlos Drummond de Andrade, in Mas Viveremos











*









* a leitura é um exercício tão íntimo, envolvente e excitante que é muitas vezes comparado ao enlevo sexual - apesar de solitário. 

e por que não entregar-se a este prazer a dois? a três, quatro, cinquenta? em grupo? uma espécie de suruba literária?

quem pensou em um clube do livro acertou. só que um tantinho diferente - reuniões onde o chá e os biscoitos sejam substituídos por um clima mais intimista e descontraído, onde todos estejam nus. 

interessante? curioso? estimulante, talvez... é o que faz um grupo de mulheres, desde 2009 em Chicago. denominado Naked Girls Reading, o grupo criado pelas artistas de show burlesco Michelle L’amour e Franky Vivid, alcançou fama pela ousadia e hoje tem uma agenda que inclui shows internacionais, além de franquias mundo afora. no entanto, as moças afirmam, não se encontra nada de decadente ou vulgar no espetáculo - ”é tão somente um grupo de mulheres despidas que lêem em conjunto, cuja única pretensão é unir duas coisas muito belas, que se complementam: mulheres e literatura. o público que vai aos shows, de ínicio espera encontrar novos estímulos visuais e intelectuais, uma alternativa de entretenimento. mas, ao final, partilham de uma experiência quase espiritual”, diz Michelle. 

por tal experiência espiritual paga-se entre 15 e 35 dólares, dependendo dos lugares - quem quiser ficar mais próximo das moças, para ver e ouvir melhor, paga mais. os temas das leituras variam desde suspense, terror e ficção científica, poesia, literatura erótica e peças clássicas.

** [as três últimas fotos da série são do Naked Girls Reading].

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ler é sexy [4] - Marilyn Monroe

 
  
 



  • ela teve uma biblioteca pessoal de mais de 400 livros
  • adorava James Joyce, Walt Whitman e o poeta Heinrich Heine. 
  • Saul Bellow e Carl Sandburg foram seus heróis literários
  • Truman Capote e Isak Dinesen eram seus amigos
  • e foi casada com o dramaturgo Arthur Miller. 
  • inúmeras fotografias tiradas de Marilyn Monroe mostram que, mesmo antes do estrelato, ela já apreciava a companhia dos livros
  • era neles que buscava as respostas aos seus questionamentos íntimos,
  • além de serem refúgio e companhia fiel durante seus surtos de insônia.
  • pode parecer engraçado que a loira mais famosa e sexy do mundo apreciasse ler James Joyce
  • mas a literatura não era piada para ela
  • seu amor por livros era genuíno
  • muito além da aparente e desesperada necessidade de ser levada a sério.
  • o mito construido sobre si
  • - o da mulher imatura, emocionalmente frágil
  • mas absolutamente sedutora,
  • magnetizante, feminina e fatal
  • a deusa da beleza e do sexo implícito
  • - acaba por, a cada revelação, tornar-se ainda maior e intangível:
  • Marilyn a sensível
  • Marilyn a intelectual
  • Marilyn a curiosa
  • Marilyn a bombshell
  • Marilyn que nunca acaba
  • Marilyn, para sempre.


*








*
dados retirados do livro Fragmentos (2011) - uma coletânea de notas, cartas e diários escritos pela atriz. ** foi neste livro que encontrei  a melhor definição do dilaceramento de Marilyn no curso de sua consolidação como deusa - escrita pelo seu último marido, o escritor Arthur Miller: "Para sobreviver, seria preciso que ela fosse mais cínica, ou, pelo menos, mais próxima da realidade. Em vez disso, ela era uma poeta na esquina, tentando recitar seus versos a uma multidão que lhe arrancava as roupas." *** a relação dos livros da biblioteca particular de MM pode ser conferida aqui: http://www.librarything.com/profile/marilynmonroelibrary

sábado, 15 de dezembro de 2012

A arte de viver é a arte de acreditar em milagres


Era uma noite de terça-feira insuspeita em Copacabana. No fim daquele dia, um grupo de frequentadores do sebo Baratos da Ribeiro faria exatamente o que faz há cinco anos: se espremeria entre as prateleiras abarrotadas da livraria para mais um encontro do Clube da Leitura, evento quinzenal em que leem trechos de livros e trocam impressões sobre contos próprios. Quando chegou a sua vez na roda, o dono do sebo e fundador do clube, Maurício Gouveia, tirou da gaveta um livro que guardava há dez anos escondido no acervo: um exemplar em italiano de "Nove contos", do escritor americano J.D. Salinger.

Não tinha coragem de vendê-lo. Com as bordas amareladas e as páginas carcomidas, aquele "Nove racconti" guardava uma dedicatória em português na página de rosto que Maurício considerava mais bonita do que todo o livro do autor do clássico "O apanhador no campo de centeio". Um homem comum — que poderia ser um médico, um vendedor de sapatos ou um trapezista de circo — declarava seu amor a uma mulher, em Milão, em 26 de dezembro de 1966. Maurício leu a dedicatória enorme, que começava com a frase "De tudo que vem de você, permanece em mim uma vontade de sorrir" e se encerrava com a oração "a vida é um contínuo chegar de esperanças". Ao final, subiu o tom para ler o nome do santo: Sylvio Massa de Campos.

Foi quando um dos frequentadores do clube soltou um "opa!". O jornalista George Patiño conhecia a família Massa, da qual Sylvio era o patriarca. Ele não vendia sapatos, trabalhava em circo ou morava em Milão: o matemático e escritor Sylvio Massa de Campos estava vivo, trabalhara a vida toda na Petrobras, tinha 74 anos e morava logo ali, no Leblon.

— Tem certeza? — perguntou Maurício.
— Trago ele aqui no próximo encontro — prometeu George.

Feito. No dia 6 de novembro, um senhor de cabelos brancos, sorriso fácil e porte altivo entrou no sebo acompanhado de duas filhas e três netos. Emocionado, recebeu das mãos de Maurício o livro perdido. Releu a dedicatória em voz alta, com pausas longas entre uma frase e outra, o que só aumentava o suspense na livraria, entrecortado pelo ruído dos netos inquietos. Depois de ser longamente aplaudido, contou aos novos colegas a história por trás daquela mensagem.
Em 1966, ele fazia mestrado em Matemática em Milão com uma bolsa do governo brasileiro. Lá, conheceu uma italianinha de nome Febea, que tinha concluído os estudos em Literatura em Londres, e acabava de retornar à Itália. Quando ela comentou que conhecia José Lins do Rego e João Cabral de Melo Neto, e que adoraria aprender português para ler Guimarães Rosa, Sylvio se apaixonou na hora: apesar de trabalhar com algoritmos, era na literatura que descansava seus teoremas. Prestes a terminar a pós-graduação, no entanto, logo voltaria ao Brasil. O amor foi construído à distância.

— Nosso namoro durou um ano, 136 cartas, nove livros, dois telegramas e um telefonema, contou Sylvio, para suspiro coletivo da plateia, e espanto das filhas, que não conheciam todos aqueles números. — Naquele tempo, dar um telefonema era uma fortuna. Esta dedicatória escrevi no dia do meu aniversário, já doido por ela. Eu nem sei como perdi o livro, acho que foi numa mudança nos anos 80.

Um ano depois, Febea veio morar no Brasil, e Sylvio montou um apartamento no Méier para ela. Tiveram duas filhas, Isabella e Gabriella — que a essa altura se debulhavam em lágrimas na livraria — e viveram felizes para sempre. Até que um câncer levou Febea aos 41 anos de idade. Sylvio nunca mais se casou.

— A arte de viver é a arte de acreditar em milagres, disse o poeta italiano Cesare Pavese, e se hoje eu estou aqui é porque ele está certo. Febea foi a pessoa que eu amei mais profundamente em toda a minha vida. E ela está presente aqui, nessas cinco pessoas que fizemos, nossas duas filhas e três netos. Esse é o milagre — declarou Sylvio, lembrando, ao final, uma frase que ouvira do neto quando ele tinha 4 anos, e que levava como mantra de vida: "Vovô, nada é grave."



*









* nada é grave, mas certas coisas nos chegam assim agudas, fininhas feito agulha cirúrgica, estalando cristais, rochas e ossos, fazendo vibrar até o já seco sangue endurecido dos agnósticos. ** na imagem, feita por Leonardo Anversa, da Agência Globo, o matemático Sylvio Massa segura porta retrato com foto de sua esposa Febea, quando jovem *** o texto acima é parte de uma matéria do Jornal O Globo e não termina aí - revela ainda mais surpresas esquecidas em dedicatórias de livros. *** dica da Carol Cesar, daqui, do Jornal Página 3.*** update! estimulada pela curiosidade do leitor amigo, trouxe para cá a dedicatória em sua versão integral, escrita por Sylvio de Campos em 66: "De tudo o que vem de você, permanece em mim uma vontade de sorrir. De todos os seus sorrisos, permanece em mim a sua tristeza. De todos os seus enganos, guardo o seu desejo de acertar. De todos os seus acertos, imagino a indiferença dos outros em não reconhece-los. Imagino também a incapacidade deles para julgar o engano e elogiar o acerto. Nem um nem outro é passível de julgamento. Você é que percebe o que reflete nos olhos dos outros! Quando enganas, sei que queres buscar a verdade. Para mim isto é suficiente. Quando dizes a verdade, não lhe creem. É o preço que o mundo oferece. Me sinto capaz de distingui-los em silêncio. Quando encontrar o desespero, pensa na tua tristeza, nos teus enganos, na indiferença dos outros, nas mentiras do mundo, nas verdades buscadas. Corres o perigo de viver neste círculo desumano, para concluir que, talvez, nada vale a pena. É preciso que tu olhes para os sãos de corpos e espírito que amam para depois errar e se desesperar mais tarde, porque um dia se recordam que um dia foram puros de espírito. Aqueles que já erraram e voltam a receber, um dia, a luz do sol, ou uma gota de chuva, não têm mais medo do erro, nem a recordação de um dia havê-los cometido. O mundo agora pode surgir com sua bela singeleza. As flores têm agora o perfume original de sua castidade. A vida é um contínuo chegar de esperanças."

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Cortina de Fumaça [6] - books and cigarettes

 Alejandro Zambra 

Tampouco podia ler sem fumar. Por isso nunca fui capaz de ler ou escrever em aviões e ônibus. Já fiquei bastante tempo sem escrever, mas não lembro de ter lido tão pouco como nesse verão. Era algo de que eu realmente precisava, pois, como eu disse, eram atividades muito ligadas: lá pelos onze ou doze anos eu já havia me tornado, quase simultaneamente, um leitor voraz e um fumante muito promissor.
Nos primeiros anos de faculdade eu logo construí um vínculo mais forte entre a leitura e o tabaco. Nessa época o poeta Kurt Folch lia Heinrich Böll e eu, que sempre imitava Kurt, fui atrás do Pontos de vista de um palhaço, belo romance em que os personagens fumam o tempo todo, acho que em todas as páginas, ou pelo menos em uma página sim, outra não. E cada vez que eles acendiam um cigarro eu fazia o mesmo, e era como se eu estivesse participando do romance. Talvez seja a isso que os críticos literários se referem quando falam do leitor ativo, pensei, um leitor que sofre junto com os personagens e se alegra quando eles ficam felizes, e que sobretudo fuma quando eles fumam.
Continuei lendo Böll com a certeza de que cada vez que alguém fumasse nos seus livros eu também o faria. Acho até que em Sinuca às nove e meia e em E não digo nem uma palavra (como esse é bom), e em Casa sem dono (que triste), os romances de Böll que li em seguida, se fumava mais do que emPontos de vista de um palhaço. Foi aí que me tornei um fumante compulsivo. Para ser mais preciso, um fumante profissional. (Não seria estúpido a ponto de dizer que virei fumante “por culpa” do Heinrich Böll. Não: foi graças a ele).
Quando deixei o cigarro lembrei, com certo temor, de uma conversa que tive há uns dois anos com meu amigo Andrés Braithwaite (um dos fumantes mais dedicados que conheço), no período em que ele havia deixado nosso nobre vício. Lembrei que em certo momento Andrés me disse, desolado: “ Agora tudo ficou infinitamente mais chato”. Me falou especialmente sobre a leitura: disse que sem fumar nenhum livro era bom, que não conseguia achar graça na leitura. Meses depois, quando o vi de novo, estava rejuvenescido, mais bonito. Ele acendeu um cigarro e, olhando-me nos olhos, disse: "Estou reabilitado". Coincidentemente, meu amigo falou nessa tarde sobre autores fabulosos que tinha descoberto, e romances desconhecidos e poemas geniais.
Não vou explicar aqui os motivos que me fizeram parar de fumar. Basta dizer que têm a ver com covardia e ambição. De repente descobri que queria viver mais. Que coisa mais absurda essa: querer viver mais. Como se a gente fosse, por exemplo, feliz. Enfim. Deixei de fumar e na semana seguinte, quando sentei em frente ao computador para escrever minha coluna, não consegui. Fiquei dez horas tentando me concentrar. Esperei até o último minuto, na ilusão de que, aos 47 do segundo tempo, aconteceria alguma mágica, mas nada. Muito envergonhado, avisei meus editores, que foram bastante compreensivos. Sinceramente pensei que nunca mais escreveria ou leria nenhuma linha. Mas, como se vê, essa história termina bem. Por sorte, aos poucos consegui. E estou orgulhoso. Voltei a ler e escrever. E a fumar.

Alejandro Zambra, Eu fumava muito bem



Heinrich Böll

Clarice Lispector

William Burroughs

 Vladimir Mayakovsky
  
John Updike

Virginia Woolf

Umberto Eco

Charles Bukowski

Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir

Mark Twain

Marguerite Duras

Patricia Highsmith 




*








* minha coleção de portraits de escritores acompanhados de seus cigarros é, sem 'fumaça' de dúvida, a mais volumosa. não à toa: escribas e tabaco, historicamente, mantêm uma relação tão estreita quanto com a tinta e papel (outros estimulantes também são comuns, como o álcool e café - para citar os legais - mas nenhum deles parece ser tão presente quanto o fumo). não por acaso, o tabaco "introduziu-se" no mundo pelas mãos dos xamãs nativos americanos. o cachimbo sagrado, ainda hoje utilizado como um canal para experiência visionária e orientação espiritual, funciona com os mesmos fins para os escritores, que buscam por entre a fumaça expelida de seus cigarros as musas inspiradoras para seus textos. e reza a lenda que o sistema indígena americano de comunicação inter-tribal, conhecido como sinais de fumaça, teve a sua origem nos pictogramas aéreos formados por redemoinhos de vapor de tabaco vistos durante sessões de fumo. e não são espécies de letras os padrões fugazes e espectrais da fumaça dos cigarros? ** mais fotos de escritores pitando? dá um click no link Cortina de Fumaça [5] - tem Oscar Wilde, Henry Miller, Zygmunt Bauman, Roberto Bolanos, Leonard Cohen, J.D. Salinger, Mário Quintana, Nelson Rodrigues, Caio Fernando de Abreu, Julio Cortázar e Albert Camus *** faltou seu escritor predileto? aguarde pelos próximos posts, que esta série é quase infinita...