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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Take this waltz



"E o que é a vida senão uma dança à volta das relações amorosas? 

Preenchida, rotineiramente, entre o ponto de partida e o de chegada. 
Aquele meio entre os dois grandes momentos: nascimento e morte, paixão e fim. 

É neste entretanto, é nessa terra de ninguém suspensa, que as decisões se tomam. É aí que o medo ou o impulso de avançar são pesados e ponderados, vezes sem conta. É neste espaço de tempo que o circo se instala - feito malabaristas, tentamos manter as possibilidades no ar.

O estar entre coisas é uma consequência de estar vivo, mas ninguém fica aí muito tempo. A lembrança, nostálgica, do vento nos cabelos, da adrenalina que nos impulsionava à vida enquanto estávamos girando a uma velocidade alucinante, com a música muito alto e cores rápidas a deslizar por todo o lado, os corpos a serem lançados um contra o outro, sempre mais depressa, sempre mais alto, video killed the radio star, in my mind and in my car, we can't rewind we've gone to far, mais depressa, mais à roda, estonteante. Soltam-se os braços ao alto, a música sobe de tom e, subitamente, para, esgotou-se o tempo, parou a música, cessou o rodopiar, acenderam-se as luzes. 

Instala-se o medo e resta-nos encaracolar para dentro da nossa toca confortável. Até a dormência nos incomodar e ser preciso correr, mergulhar, decidir, para lá do medo, para lá da pena, para lá de tudo, porque é preciso, porque estar vivo é preciso. Mesmo que o outro nem tenha se dado conta que o chão estava a quebrar debaixo dos pés, porque é sempre assim: há quem prefira não enxergar o tsunami que se prepara a olhos nus. 

E então abraça-se a vertigem... é-se feliz na vertigem: take this waltz, take this waltz, take this waltz it's been dying for years e dança-se, roda-se, num espaço aberto e vazio, expectante de possibilidades, onde a cama é o centro de tudo e é usada, é mesmo muito usada, e à volta dela vai nascendo uma casa, uma cozinha, um abajur, uns cortinados, todos os adereços que tornam um espaço nosso e a cama lá no centro daquele open space, e a vida a girar à volta dela, a rodopiar à volta dela, depressa, take this waltz, take this waltz, até que a rotina toma conta de tudo - toma sempre conta de tudo porque não fomos desenhados para viver a rodopiar e a certa altura temos de parar. 

A rotina invade a casa, remete a cama para o canto e no centro instala-se um sofá e um televisor, um lugar de aconchego, com mantas e almofadas e é tempo de se segredarem coisas do coração ao ouvido, num conforto estagnado que é bom. 

E a vida avança (não rodopia) até ao dia em que o passado bate à porta e somos confrontados com aquilo que largamos lá para trás, os estragos que fizemos, o que de bom que lá ficou. 

É quando percebemos que a única solução é seguir em frente e que o carrossel somos nós que o giramos, somos nós que o procuramos, ele está lá, sempre à nossa espera, dentro de nós, take this waltz."




*







* é muito provável que a luta para garantir a sobrevivência do amor encontre suas mais duras batalhas entre os pequenos resmungos da troca de fraldas ou do ato de dar de mamar às três e quarenta e sete da manhã ou do bom e velho tédio; é mais provável que se encontre em pequenas traições ou deslizes ferinos da língua, que apresente o heroísmo cotidiano de fingir não ver mil pequenos hábitos irritantes. em suma, o amor é trabalho duro. e o final feliz não é o fim, mas o recomeço, ainda mais uma vez, o re-recomeço da insana função de manter vivo o amor. insana, sim... entretanto, quem é dono de loucura tão grande capaz de prescindir de uma boa história de amor? ** [Entre o Amor e a Paixão - "Take this Waltz", é um filme dirigido por Sarah Polley e estrelado por Michelle Williams e Seth Roger]

terça-feira, 11 de junho de 2013

O que nos escapa

E então, a amiga perguntou por perguntar, apenas iniciando a conversa, e então, perguntou acendendo um cigarro, sem interrogação, e então, como vai a vida de casada.

Vai bem, ela respondeu, vai bem, quer dizer, em alguns momentos é ótima, alguns poucos momentos não são tão bons, ainda não tivemos um instante realmente terrível.

Mas como é na maior parte do tempo, a amiga perguntou, agora com um ânimo frouxo, uma quase ansiedade que fez com que repetisse com um pouco mais de energia: como é?

Na maior parte do tempo, você sabe, ela respondeu, na maior parte do tempo é rotina. Porque tudo é assim, casamento, filho, o emprego dos sonhos, tudo é acomodado em dias, e os dias são um conjunto de poucos momentos ótimos, alguns momentos bons, poucos momentos terríveis e, na maior parte do tempo, rotina.

É acordar, fazer o café, arrumar a mesa, ir ao banheiro, esquecer alguma coisa, voltar para pegar, suspirar, lembrar de alguma coisa e ir.

É comer uma fruta, pagar a fatura do cartão de crédito, telefonar para alguém, fazer planos, consultar as horas, rir de alguma bobagem, pensar em algo sério, tentar esquecer alguma coisa.

A maior parte do tempo é olhar o mundo automaticamente, olhar o mundo com a intimidade de quem já habita há algum tempo este mundo, o velho mundo de sempre, é olhar o mundo com a intimidade de quem está misturado ao concreto, passa reto pelos cruzamentos, faz parte da paisagem.

Sofrer, se divertir, trabalhar, sonhar, planejar, se desiludir, ansiar, rir, degustar alguma angústia amarga que veio sem avisar na tarde de uma terça-feira, assim é a maior parte do tempo.

A maior parte do tempo é descolada das circunstâncias, é cega e não tem tato – apenas existe, apenas varre, passa como o vento, levando tudo, como se nada fosse muito grande ou muito pequeno. A maior parte do tempo é a massa, a forma, é onde a maior parte da existência se dá, a maior parte do tempo é o lado de fora, fora dos grandes dramas e das delicadezas miúdas.

A maior parte do tempo é o que nos escapa.



 Liliane Prata, A maior parte do tempo


*







* c'est ça? não! por favor, não. é terça à tarde, a vida é curta, não sabes? vem comigo. não sentes compaixão por mim? aceita meu convite angustiado: desabilita o automático. olha o mundo com a intimidade de morador nativo. é o velho mundo de sempre, mas não precisas te confundir com o concreto e moldar-te todo rígido - faz a curva, passa ao lado. vai além, alça voo e pousa na beirada dos telhados. faz como o fotógrafo aí em cima: percebe que tudo pode ser uma questão de perspectiva. vês?

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O luar se apagou e a noite emudeceu



[...]

Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou 
Nos recantos do teu 
E o luar se apagou 
E a noite emudeceu 
O frio fundo do céu 
Foi descendo e ficou. 

[...]


Márcia


*











*                                                               o sangue arrefeceu
o meu pé aterrou
minha voz sussurrou: 
"o meu sonho morreu" 

vou deixar-te. 
sobre a pele que há em mim, 
tu não sabes nada.

[em verdade, 
sob a pele que há em mim, 
não há de teu mais nada].


** A pele que há em mim foi escrita pela cantora e compositora portuguesa Márcia  e lançada em 2010, no seu primeiro álbum, "Dá". Em 2012, a canção foi regravada em dueto com o cantor J. P. Simões.
*** vale pôr a canção no repeat e acompanhar a letra, na íntegra...

sábado, 6 de abril de 2013

Coisa simples e pouca, mas...

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.
Eugénio de Andrade
 




* estive fora do ar por uns dias. imersa no oceano, conectada à mim mesma. com os ouvidos e os sentidos sintonizados no fresco marulhar matutino e no estrondoso clamor noturno. do mar. de mim. ecoando 'inda mais forte nos meus vazios internos, agora mais ocos. crateras preenchidas de nada. expandidas por tanta água rolada, tanto leite derramado. no sábado que antecedeu a Páscoa, o barulho se fez silêncio e o dia ficou imenso. como a reverberar a "morte" do dia anterior: a pedra colocada sobre o túmulo. ou já aquele misterioso silêncio que prepara o renascimento - o intervalo misterioso onde se engendra a vida. o espaço entre o momento que se confirma que "tudo está consumado" e a insurreição. um silêncio preenchido por impasses, pela memória das travessias. um tempo amassado entre derrotas e esperanças, entre provação e júbilo. mas que anuncia, nas suas dobras íntimas, a esperada transmutação. não mais uma sôfrega indefinição: um intervalo entre o não e o que sou.

domingo, 10 de março de 2013

Se eles apenas aprendessem que o caleidoscópio que gira move a todos nós, um após o outro


  • na mesma semana que uma médica curitibana causa horror por "antecipar óbitos", principalmente de pacientes do SUS,
  • o ministro das finanças do Japão declara que os idosos deveriam se apressar em morrer ao invés de custar dinheiro ao governo em cuidados médicos até o fim da vida, 
  • chama de "povo tubo" os pacientes que não conseguem se alimentar - e completa:
  • "Deus nos livre de ser forçado a viver quando se quer morrer".

  • há poucos dias, na Inglaterra, o escritor Martin Amis comparou a população crescentemente envelhecida da Grã-Bretanha a "uma invasão de imigrantes horríveis, velhos e dementes, emporcalhando restaurantes, lojas e cafés"
  • e sugeriu que fossem instalados estandes de eutanásia nas ruas para que os idosos pudessem se matar
  • "Como a sociedade suportará esse tsunami grisalho? Posso imaginar uma espécie de guerra civil entre velhos e jovens daqui a uns 10 ou 15 anos."

  • enquanto isso, o belo e devastador filme austríaco O Amor
  • que retrata o inexorável ocaso de um casal
  • (a última fase da vida de uma mulher que decide morrer na intimidade de sua casa, acompanhada somente do olhar vazio de seu marido),
  • acumula estatuetas: Palma de Ouro, Globo de Ouro, o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, filme do ano para a National Board of Review, quatro prêmios do Cinema Europeu e o Oscar de melhor película estrangeira.

  • [tento buscar algum sentido intrínseco nisto
  • mas o absurdo põe meu olhar à beira de um poço oco onde reverberam o horror e a dúvida:
  • será que na lenta e asfixiante descida até o inevitável
  • a única dignidade restante
  • aos que receberam o privilégio de uma vida longa
  • é esconder suas dores e sua humanidade
  • bem longe do olhar impaciente do mundo cruel?]  


*










* "there's a calm surrender, to the rush of a day, whem the heat of a rolling wind, can be turned away. there's a time for everyone, if they only learn that the twisting kaleidoscope move us all in turn. an enchanted moment, and it sees me through: it's enough for this restless warrior, that we've got this far... " [Can You Feel the Love Tonight foi a canção vencedora do oscar  de 1994, composta por Elton John, com letra de Tim Rice, para o fime O Rei Leão].** dos cantores do vídeo, só o que pude apreender é que são canadenses, de Oakville, Ontario; e costumam reunir-se nesta lanchonete, chamada Tim Horton's...

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Incorpóreo é o desejo


Quem és? Perguntei ao desejo.
                Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

 
...


Desejo é uma palavra com a  vivez do fogo 
e outra com a ferocidade de um só amante
Desejo é Outro. Voragem que me habita

 
Hilda Hilst, in Do Desejo, 1992
   

 
 
* "Minha convicção, reforçada por vinte anos de prática, é que, enquanto criam segurança, muitos casais confundem sexo com absorção. Essa confusão é um mau presságio para o desejo. Para ser mantido, o impulso para o outro precisa atravessar uma sinapse. O erotismo exige distância. Em outras palavras, o erotismo viceja no espaço entre o eu e o outro. Para entrar em comunhão, os amantes precisam ser capazes de tolerar esse vazio e seu véu de incertezas". Ester Perel [terapeuta de casais, na introdução de Sexo no Cativeiro].
*** [no título - verso de Hilda Hilst]

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Enquanto houver amor, haverá entendimento






*









* porque hoje é dia de celebrar o amor, um dos curtas animados que está na corrida pelo Oscar 2013 [a cerimônia acontece em 24 de fevereiro].

 
** no título, frase sussurrada por Piero no ouvido de Vittoria, em cena d' O Eclipse (1962), segundo filme da trilogia da incomunicabilidade, de Michelangelo Antonioni.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A arte de viver é a arte de acreditar em milagres


Era uma noite de terça-feira insuspeita em Copacabana. No fim daquele dia, um grupo de frequentadores do sebo Baratos da Ribeiro faria exatamente o que faz há cinco anos: se espremeria entre as prateleiras abarrotadas da livraria para mais um encontro do Clube da Leitura, evento quinzenal em que leem trechos de livros e trocam impressões sobre contos próprios. Quando chegou a sua vez na roda, o dono do sebo e fundador do clube, Maurício Gouveia, tirou da gaveta um livro que guardava há dez anos escondido no acervo: um exemplar em italiano de "Nove contos", do escritor americano J.D. Salinger.

Não tinha coragem de vendê-lo. Com as bordas amareladas e as páginas carcomidas, aquele "Nove racconti" guardava uma dedicatória em português na página de rosto que Maurício considerava mais bonita do que todo o livro do autor do clássico "O apanhador no campo de centeio". Um homem comum — que poderia ser um médico, um vendedor de sapatos ou um trapezista de circo — declarava seu amor a uma mulher, em Milão, em 26 de dezembro de 1966. Maurício leu a dedicatória enorme, que começava com a frase "De tudo que vem de você, permanece em mim uma vontade de sorrir" e se encerrava com a oração "a vida é um contínuo chegar de esperanças". Ao final, subiu o tom para ler o nome do santo: Sylvio Massa de Campos.

Foi quando um dos frequentadores do clube soltou um "opa!". O jornalista George Patiño conhecia a família Massa, da qual Sylvio era o patriarca. Ele não vendia sapatos, trabalhava em circo ou morava em Milão: o matemático e escritor Sylvio Massa de Campos estava vivo, trabalhara a vida toda na Petrobras, tinha 74 anos e morava logo ali, no Leblon.

— Tem certeza? — perguntou Maurício.
— Trago ele aqui no próximo encontro — prometeu George.

Feito. No dia 6 de novembro, um senhor de cabelos brancos, sorriso fácil e porte altivo entrou no sebo acompanhado de duas filhas e três netos. Emocionado, recebeu das mãos de Maurício o livro perdido. Releu a dedicatória em voz alta, com pausas longas entre uma frase e outra, o que só aumentava o suspense na livraria, entrecortado pelo ruído dos netos inquietos. Depois de ser longamente aplaudido, contou aos novos colegas a história por trás daquela mensagem.
Em 1966, ele fazia mestrado em Matemática em Milão com uma bolsa do governo brasileiro. Lá, conheceu uma italianinha de nome Febea, que tinha concluído os estudos em Literatura em Londres, e acabava de retornar à Itália. Quando ela comentou que conhecia José Lins do Rego e João Cabral de Melo Neto, e que adoraria aprender português para ler Guimarães Rosa, Sylvio se apaixonou na hora: apesar de trabalhar com algoritmos, era na literatura que descansava seus teoremas. Prestes a terminar a pós-graduação, no entanto, logo voltaria ao Brasil. O amor foi construído à distância.

— Nosso namoro durou um ano, 136 cartas, nove livros, dois telegramas e um telefonema, contou Sylvio, para suspiro coletivo da plateia, e espanto das filhas, que não conheciam todos aqueles números. — Naquele tempo, dar um telefonema era uma fortuna. Esta dedicatória escrevi no dia do meu aniversário, já doido por ela. Eu nem sei como perdi o livro, acho que foi numa mudança nos anos 80.

Um ano depois, Febea veio morar no Brasil, e Sylvio montou um apartamento no Méier para ela. Tiveram duas filhas, Isabella e Gabriella — que a essa altura se debulhavam em lágrimas na livraria — e viveram felizes para sempre. Até que um câncer levou Febea aos 41 anos de idade. Sylvio nunca mais se casou.

— A arte de viver é a arte de acreditar em milagres, disse o poeta italiano Cesare Pavese, e se hoje eu estou aqui é porque ele está certo. Febea foi a pessoa que eu amei mais profundamente em toda a minha vida. E ela está presente aqui, nessas cinco pessoas que fizemos, nossas duas filhas e três netos. Esse é o milagre — declarou Sylvio, lembrando, ao final, uma frase que ouvira do neto quando ele tinha 4 anos, e que levava como mantra de vida: "Vovô, nada é grave."



*









* nada é grave, mas certas coisas nos chegam assim agudas, fininhas feito agulha cirúrgica, estalando cristais, rochas e ossos, fazendo vibrar até o já seco sangue endurecido dos agnósticos. ** na imagem, feita por Leonardo Anversa, da Agência Globo, o matemático Sylvio Massa segura porta retrato com foto de sua esposa Febea, quando jovem *** o texto acima é parte de uma matéria do Jornal O Globo e não termina aí - revela ainda mais surpresas esquecidas em dedicatórias de livros. *** dica da Carol Cesar, daqui, do Jornal Página 3.*** update! estimulada pela curiosidade do leitor amigo, trouxe para cá a dedicatória em sua versão integral, escrita por Sylvio de Campos em 66: "De tudo o que vem de você, permanece em mim uma vontade de sorrir. De todos os seus sorrisos, permanece em mim a sua tristeza. De todos os seus enganos, guardo o seu desejo de acertar. De todos os seus acertos, imagino a indiferença dos outros em não reconhece-los. Imagino também a incapacidade deles para julgar o engano e elogiar o acerto. Nem um nem outro é passível de julgamento. Você é que percebe o que reflete nos olhos dos outros! Quando enganas, sei que queres buscar a verdade. Para mim isto é suficiente. Quando dizes a verdade, não lhe creem. É o preço que o mundo oferece. Me sinto capaz de distingui-los em silêncio. Quando encontrar o desespero, pensa na tua tristeza, nos teus enganos, na indiferença dos outros, nas mentiras do mundo, nas verdades buscadas. Corres o perigo de viver neste círculo desumano, para concluir que, talvez, nada vale a pena. É preciso que tu olhes para os sãos de corpos e espírito que amam para depois errar e se desesperar mais tarde, porque um dia se recordam que um dia foram puros de espírito. Aqueles que já erraram e voltam a receber, um dia, a luz do sol, ou uma gota de chuva, não têm mais medo do erro, nem a recordação de um dia havê-los cometido. O mundo agora pode surgir com sua bela singeleza. As flores têm agora o perfume original de sua castidade. A vida é um contínuo chegar de esperanças."

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Só o humor salva [2]





*








* são 5h11 e as opções que tenho são: ( ) comer; ( ) beber; ( ) calçar meus tênis e sair pra caminhar; ( ) ler; ( ) pensar que minha insônia tornou-se crônica e vem arruinando, progressivamente, com meus poucos neurônios, minha memória, minha forma física, minha cútis, minha energia, meu trabalho e minha vida pessoal; ( ) chorar; ( ) tomar um relaxante e ir pra cama; (X) antes, fazer uma piadinha de mim mesma porque a barra pesou...

domingo, 16 de setembro de 2012

Minha vida neste livro a ti dedicado


O livro “Carta a D.”, que o filósofo André Gorz escreveu para sua companheira de toda a vida —  começa com estas palavras que nunca deixam de me emocionar: “Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher”. 



(Gorz depois fez outra, digamos, dedicatória à esposa desenganada: matou-se com ela em um pacto suicida.) 




*




* trecho extraído do ensaio sobre dedicatórias em livros, escrito por Marcelo Franco. "há algo de muito íntimo em receber um livro com dedicatória" (eu mesma já me desfiz de dois grandes livros com duas incríveis dedicatórias porque me expunham demais). ** à propósito, já conhece o Eu te dedico? um tumbrl colaborativo feito de fotos e histórias de dedicatórias em livros - porque "um livro com dedicatória é um livro com duas histórias, uma que começa no primeiro capítulo e uma que começou antes de se passarem as páginas."

quinta-feira, 22 de março de 2012

Da série Verdades Indissolúveis: a felicidade perfeita



"Você é feliz?" foi a pergunta que me fez o amigo que não me vê há 25 anos
e que me reencontrou há pouco, no chat do Facebook,
parei pra pensar. um, dois, três segundos. surpresa com a pergunta, mas já sabendo a resposta:
"Noooop!" foi o que escrevi.
Uma constatação que nem é triste, nem conformada
somente uma verdade feliz: sou muito gente pra me encher de alegrias,
abanar o rabinho e correr ganindo quando me lançam um ossinho.

Então fica combinado: não sou feliz e sou feliz por ser assim.
[acho até que já posso morrer
mas sigo na fé que me provem o contrário]

...


"Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos tem a cor da água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém-nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória. Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero."

Eduardo Galeano, in desmemória/1




*




* no mais, vou levando como pede o ditado: com alegrias suficientes para sustentar a doçura infantil, desafios suficientes para me fazer forte, tristezas suficientes para me manter humana e esperança o quanto baste para que eu aviste a felicidade. ** no vídeo, trecho de Cenas de um Casamento (1973), de Ingmar Bergman, com Liv Ulmann.

Solo unos piquetitos



Dizem
que o primeiro amor é o mais importante.
É muito romântico,
mas não é o meu caso.

Algo entre nós houve e não houve,
deu-se e perdeu-se.
Não me tremem as mãos
quando encontro pequenas lembranças,
aquele maço de cartas atadas com um barbante,
se ao menos fosse uma fita.

O nosso único encontro, passados anos,
foi uma conversa de duas cadeiras
junto a uma mesa fria.

Outros amores
continuam até hoje a respirar dentro de mim.
A este falta fôlego para suspirar.

No entanto, sendo como é,
não lembrado,
nem sequer sonhado,
consegue o que os outros não conseguem:
acostuma-me com a morte.





Wistawa Milewska, O Primeiro Amor




*







* na imagem, tela de Frida Khalo, da época que descobriu a traição de seu marido, Diego Rivera, com sua irmã, Cristina. Frida imprimiu sua dor e raiva nesta obra. Uma dor tão profunda que não cabia em si - projetou-a nas desgraças de outra mulher. Frida havia lido em um jornal a história sobre uma mulher assassinada a facadas pelo marido. O assassino defendeu-se perante o juiz dizendo: "Mas foram tão somente uns poucos 'piquezinhos'". Kahlo confidenciou a um amigo que simpatizou com a mulher morta pois ela foi "assassinada pela vida"... uma referência ao romance entre Diego e Cristina e à crença de que o amor é vida. As pombas - símbolo da paz - que ironicamente seguram a faixa com título do quadro, representam os dois lados do amor (um claro e outro escuro). Quando a pintura foi concluída, Kahlo deu um toque final para o projeto: num acesso de raiva, esfaqueou o quadro diversas vezes. Em novembro de 1938, a obra foi levada à primeira exposição individual de Kahlo na galeria Julien Levy, em Nova York. ** cuantos piquetitos uno soporta hasta el fin?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A essência de um homem é seu espírito


Maio, 1948


Prezada Sra. Rondeau:


Você me pediu para explicar o sentido da frase de minha autoria: "Para dizer eu te amo é preciso primeiro aprender a dizer eu".

O significado da frase está contido no conjunto de A Nascente [o livro The Fountainhead, publicado nos EUA, em 1943]. E afirma-se, no decurso das 400 páginas a partir do qual você tirou a frase.

O "eu" é uma entidade independente e autosuficiente que não existe por causa de qualquer outro ser. Uma pessoa que só existe por seus entes queridos não é uma entidade independente, mas um parasita espiritual. E o amor de um parasita não vale nada.

No absurdo (e muito cruel) mundo em que vivemos, sempre se apregoou que o amor é autosacrifício. A essência de um homem é o seu espírito. Se sacrificamos nosso espírito, quem ou o que resta para sentir o amor? É o não-sacrifício de sua essência que devemos respeitar, sobre todas as coisas. O verdadeiro amor é profundamente egoísta, no mais nobre sentido da palavra - é uma expressão dos valores mais altos de uma pessoa. Quando uma pessoa está apaixonada, ele busca sua própria felicidade - e não o seu sacrifício - junto da pessoa amada. E o amado seria nada mais que um monstro se pretende ou espera um sacríficio do outro.

Toda pessoa que pretende viver somente para os outros - para um companheiro, amante, filhos ou para toda a humanidade - é uma nulidade altruísta. Um "eu" independente é aquele que existe para seu próprio bem. Tal pessoa não incorre na doença viciante do autosacrifício e não o exige da pessoa que ama. E esta, guarde bem, é a única forma de amor que vale a pena. É a única maneira de uma relação verdadeira e respeitosa existir entre duas pessoas.


Sinceramente;

Ayn Rand



*






*Ayn Rand recebeu uma carta de uma fã, pedindo que ela explicasse o que quis dizer com a frase "to say I love you one must first know how to say I", que está em seu livro, A Nascente. A obra, escrita em 1935, levou sete anos para ser concluída. Foi rejeitada por 12 editoras e inicialmente publicada em 1943. Após, A Nascente foi considerada uma das mais influentes referências da cultura americana, atrás somente da Bíblia. Nele, Rand difunde a idéia de que o homem não é uma vítima - impotente e insignificante. Que deve respeitar-se e valorizar-se. Que tem o direito e o dever de comprometer-se com seus ideais e explorar seu potencial único. Que sua missão é realizar-se... Há quem afirme que suas idéias ampliaram o espírito empreendedor e inovador dos americanos o que também contribuíu para a atual crise financeira no mundo. ** o filme Vontade Indômita, de 1949, foi baseado na história de A Nascente *** retirado do Letters of Note, um site que mostra cartas, postais, telegramas e fragmentos de memória de gente famosa e nem tão famosa trocando correspondências muito bonitas e sensíveis.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A última estação


"O grande Leon Tolstoi, mundialmente conhecido por ter escrito Guerra e Paz (1869), a colossal epopéia que envolve toda uma nação e que encerra nela não só uma parábola da sociedade aristocrática russa nos tempos das campanhas napoleônicas, como também a intrincada, desmesurada, misteriosa, única e algo louca alma russa.

O grande Leon Tosltoi, que escreveu antes de todos que 'as famílias normais não tem nada de especial' e desvendou outra alma desmesurada, misteriosa e definitivamente louca: a da mulher adúltera apaixonada, em Anna Karenina (1878).

O grande Leon Tosltoi, também conhecido por suas afrontas ao regime czarista (foi contra o czar por uma questão de princípio), por ter renunciado ao título de conde, por ter sido excomungado pela igreja ortodoxa, por proferir sentenças altamente audazes e provocadoras para a época e para o império russo ('Os ricos farão de tudo pelos pobres, menos descer de suas costas').

Igualmente poderoso - reconhecido e idolatrado como um gênio em vida - e intocável, ninguém se atrevia a desafiá-lo. Multidões emocionadas desfilaram no seu cortejo fúnebre a entoar o etern memóri, no primeiro enterro civil celebrado na Rússia. Mas era antipático como a foice! Ele próprio se definia: 'Sou feio, desajeitado, pouco asseado e sem verniz mundano. Sou irritadiço, desagradável para os outros, pretensioso...'. Mesmo na sua escrita, de frases densas, sem efeitos de estilo nem qualquer tipo de submissão aos sinônimos, não demonstrava um humor particular.

Parecia o gênero de pessoa que amava tanto, mas tanto a humanidade que quase se esquecia de amar o próximo - ou a família - que estava bem ali ao lado. Preferia mudar o mundo do que mudar-se a si próprio. Queria doar em testamento os direitos da sua obra ao povo russo, desfazer-se das suas propriedades, o que enlouqueceu a condessa Sophia, aquela que foi sua musa, mãe dos seus 13 filhos, que lhe decifrou e copiou 6 vezes as suas garatujas da Guerra e Paz e lhe dava conselhos do enredo: 'A Natacha nunca diria tal coisa ao príncipe Andrei'.

Não era a forma que lhe interessava ('Se a vida falasse, falaria como Tosltoi escreve'). E no entanto, este homem que passou metade da vida a vergastar colericamente e a outra metade a lamber as próprias feridas, arrastou, já velho, rabugento e hesitante, quase como um profeta, um séquito de discípulos fanáticos que se converteram ao tolstismo, uma espécie de teologia algo débil e confusa, que ora se aproximava dos primitivos cristãos, ora do anarquismo místico, ora da resistência passiva que inspirou Ghandi - aliás, ambos trocaram correspondência. Uma série de apóstolos (entre os quais uma filha voluntariosa) acreditavam cegamente que 'Deus falava de uma forma particularmente clara através de Leon Tosltoi'.

Já não era o jovem nobre que participou na Guerra da Criméia e que cometia excessos, alvoroços e 'ex-sexos' com prostitutas, orgias, jogo e muito vodka. Já não era também o pai de família, sublime escritor de alguns dos clássicos mais definitivos da literatura mundial. Próximo da última estação da sua vida é um velho idealista, cioso pela pureza, intolerante com os vícios depois de os ter cometido a todos. E nisto consiste a sua maior tragédia. Renegar a violência depois de a ter praticado na guerra e sobre os subalternos. Repugnar-lhe a carne, depois de passar por faustosos banquetes. Pregar a abstinência sexual, depois de ter tido 13 filhos (mais um, que se saiba, fora do casamento) e todo um histórico de turbulências amorosas. Abdicar da riqueza depois de a ter usufruído durante a vida toda - e atenção que os padrões da nobreza russa não têm qualquer paralelo, em opulência e autoridade, com os da aristocracia ocidental. Este é outro Tolstoi. O Tolstoi que já não se interessa por romances, mas tão idealista quanto incoerente, tão sentimentalista quanto naif, tão velho quanto confuso, cheio de conflitos existenciais, numa guerra (sem paz) interior."






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* Ana Margarida de Carvalho, é jornalista e escreveu este texto em 2009, quando do lançamento do filme "A última estação", do diretor Michael Hoffmamn, com os soberbos atores Christopher Plummer e Helen Mirren, além de James McAvoy e Paul Giamatti. Não vi o filme, mas o texto fez-me lembrar de outro senhor. Também escritor, também genial, também "cantor de sua terra", também reconhecido em vida por seu imenso talento, também generoso, também excêntrico, mas muitíssimo simpático: Mário Quintana. E é de Mário esse poeminha lindo que trouxe pra cá, uma visão ingênua, praticamente infantil da morte de Leon Tolstoi:

Poema da Gare de Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
Sentou-se ...e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!

E então a Morte,
Ao vê-lo tao sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...

Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

...

** continuo pensando nestes dois - TolstoiQuintana. Em suas diferenças. E nas razões para tais... Quem vai saber? Só posso imaginar que existam mesmo motivos que desconheço para que uma pessoa nasça em tal latitude geográfica. Ou seja, não é de graça que um indivíduo calhe de 'estrear' em terras tão duras e frias como a Rússia. Como também não é fortuito que se nasça no Brasil... alguma leveza deve se ter, não? Mas temo que a maior diferença entre os dois tenha sido mesmo o casamento e os filhos. Quintana morreu solteirão e sem herdeiros. E isto cria uma dimensão redbulliana à vida - te dá asas!

domingo, 27 de novembro de 2011

Feeling this way today





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* Freud disse uma vez que as pessoas se revestem de muita força quando se percebem amadas. Ok, e a força que nos é tirada justamente pelas pessoas que mais amamos? hã? hein?

Quando o silêncio ensurdece


"A incomunicabilidade não é aquilo que não se consegue dizer, mas aquilo que ainda não se disse ou, mais precisamente, o que não tem como se dizer.

O que torna insuportável uma relação é que aquilo que não tem como se dizer é, num certo sentido, todos os dias dito. E ninguém aguenta ouvi-lo muito tempo."

 
 
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* fala extraída de Climas, filme do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan. Climas ilustra simultaneamente a mudança de estações durante o ano e a ruptura de relações num casal, com renovação de temperaturas e sentimentos quando o ciclo volta ao começo. "Climas é um filme feito das sutilezas próprias da amargura. Não existe aqui propriamente uma felicidade, uma satisfação perante a vida, existem palavras que ficam por dizer, sentimentos que ficam por explicar. Há momentos que não voltam e há tempos que passam, de repente é tarde demais. Mesmo que nos pareça que o tempo se prolonga até à eternidade nos grandes planos de imagem, belíssimos, longos e extremamente significativos. [...] Climas vive destes desencontros na vida das pessoas, alimentado por uma bela fotografia e por momentos de suspensão temporal baseados em grandes planos, em tempos longos, como se não existisse tempo. E ficamos com essa sensação de angústia sem tempo, que pode durar toda uma vida. É um filme amargo, sem grandes esperanças, que aceita as evidências."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Conta-me outra vez


Conta outra vez, é tão encantador
que não me canso de ouvir.
Repete outra vez que o casal
do conto foi feliz até morrer,
que ela não foi infiel, que a ele sequer
ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar dos problemas,
continuavam se beijando toda noite.
Conta-me mil vezes, por favor:
é a história mais bonita que conheço.




Amália Bautista




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* porque hoje vi na vitrine uma t-shirt onde se lia "I have the right to remain romantic..." (mas não comprei - antes, o dever de deixar minhas contas em dia!)

domingo, 13 de novembro de 2011

Breve história acerca de um longo - e amargo - conhecimento



"Esther despejava diariamente a alma no seu diário e mantinha com o marido o acordo tácito de que essse caderno ficaria guardado na gaveta da escrivaninha, cujas duas únicas chaves eram uma dela e a outra dele.

Deixava naquelas páginas os indizíveis que nem às paredes se confessam e largava mensagens para o outro, sabendo que este tinha, literalmente, a chave para as encontrar. Havia o acordo tácito de que ali tudo era possível e nada era proibido, naquelas páginas a liberdade dela era total e o segredo não existia.

Viveram assim durante anos, numa confiança selada a tinta e papel, até ao dia em que o marido abriu a gaveta e o diário não estava lá."

 
 
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* Perdi as vezes que ouvi da boca de meu pai o conselho "há que confiar desconfiando" - sempre, como ainda hoje - ouço-o arrepiando-me com o fel que essa verdade destila. E também não foram poucas as vezes em que me questionei sobre a confiança, essa linha tão tênue (quando no lugar deveria haver um pilar!) a sustentar as relações; não à toa, de forma mais ou menos sólida. Uma linha - uma só e muito fina - que treme a um sopro a estabelecer fronteiras sempre derrubadas. Se tudo muda, nós também mudamos e as relações se acomodam tectonicamente a estas mudanças. E assim com as fronteiras da confiança: ora diluem-se, ora esticam e encolhem ao sabor da conveniência, de forma sutil, imperceptível. Até o ponto em que nos percebemos em um jogo, com créditos e descréditos acumulados como fichas - até o momento da ruptura, quando o injustificável encontra o paliativo necessário. É aí que a linha expande-se e a confiança entra em terra de ninguém, sem lei e para além dela... ** a historieta acima é descrita no romance "A herança de Esther", do ioguslavo (ainda existe a Iuguslávia?) Sándor Márai (que eu não li) mas soube por Leonor, que escreve aqui.

... 'cause love is [also] joy!


Marilyn Monroe e Arthur Miller

Joanne Woodward e Paul Newman

Dianne Keaton e Woody Allen

John Lennon e Yoko Ono


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* ok, então vamos lá: "Amar é sofrer. Para evitar o sofrimento você não deve amar. Mas, dessa forma, você sofre por não amar. Ou seja, amar é sofrer; não amar é sofrer; sofrer é sofrer. Ser feliz é amar. Ser feliz, então, é sofrer, mas o sofrimento te faz infeliz. Ou seja, para ser feliz você deve amar ou amar para sofrer ou sofrer de tanta felicidade. Espero que tenha entendido." Woody Allen ** porque hoje é domingo - e um domingo com cara de sexta - escolhi ser feliz.

domingo, 9 de outubro de 2011

Amorquistão


"Casar ou não casar, esta é a questão, é assim aqui ou no Cazaquistão, que eu chamaria de Cazarquistão, ou, se você quiser, Quiserquistão, o que está fora de questão é amar-te, mesmo que fosse em Vênus ou em Marte; mas se eu pudesse escolher, acredite, escolheria o reino de Afrodite, não sei se por qualquer superstição vinda sei lá, de algum Seilaquistão, ou por amor de outras mitolorgias, dos orixás da Grécia ou da Bahia; não que lá em Marte fosse amar-te menos, mas eu preferiria amar-te em Vênus."



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* a ilha acima existe, e bem poderia ser chamada de Amorquistão; mas seu nome é Galesnjak, ou Ilha do Amor e está localizada no Adriático, Croácia. Este é um dos poucos lugares no mundo em que essa formação em formato de coração acontece naturalmente. A ilha foi destaque no Google Earth em fevereiro de 2009. ** o texto acima foi copiado da última página da revista Lola deste mês, outubro de 2011 e é de autoria de Geraldo Carneiro.