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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Feeling this way, these days... in the mood for love


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhamos tardamos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos noturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!



José Carlos Ary dos Santos



*











* na imagem, cartaz chinês do filme Amor à Flor da Pele (In the Mood for Love) de Wong Kar Wai, 2000.
** update: porque não informei propriamente que José Carlos Ary dos Santos tecia suas poesias para composições musicais, assim como Chico e Caetano, dentre tantos.
 

terça-feira, 11 de junho de 2013

O que nos escapa

E então, a amiga perguntou por perguntar, apenas iniciando a conversa, e então, perguntou acendendo um cigarro, sem interrogação, e então, como vai a vida de casada.

Vai bem, ela respondeu, vai bem, quer dizer, em alguns momentos é ótima, alguns poucos momentos não são tão bons, ainda não tivemos um instante realmente terrível.

Mas como é na maior parte do tempo, a amiga perguntou, agora com um ânimo frouxo, uma quase ansiedade que fez com que repetisse com um pouco mais de energia: como é?

Na maior parte do tempo, você sabe, ela respondeu, na maior parte do tempo é rotina. Porque tudo é assim, casamento, filho, o emprego dos sonhos, tudo é acomodado em dias, e os dias são um conjunto de poucos momentos ótimos, alguns momentos bons, poucos momentos terríveis e, na maior parte do tempo, rotina.

É acordar, fazer o café, arrumar a mesa, ir ao banheiro, esquecer alguma coisa, voltar para pegar, suspirar, lembrar de alguma coisa e ir.

É comer uma fruta, pagar a fatura do cartão de crédito, telefonar para alguém, fazer planos, consultar as horas, rir de alguma bobagem, pensar em algo sério, tentar esquecer alguma coisa.

A maior parte do tempo é olhar o mundo automaticamente, olhar o mundo com a intimidade de quem já habita há algum tempo este mundo, o velho mundo de sempre, é olhar o mundo com a intimidade de quem está misturado ao concreto, passa reto pelos cruzamentos, faz parte da paisagem.

Sofrer, se divertir, trabalhar, sonhar, planejar, se desiludir, ansiar, rir, degustar alguma angústia amarga que veio sem avisar na tarde de uma terça-feira, assim é a maior parte do tempo.

A maior parte do tempo é descolada das circunstâncias, é cega e não tem tato – apenas existe, apenas varre, passa como o vento, levando tudo, como se nada fosse muito grande ou muito pequeno. A maior parte do tempo é a massa, a forma, é onde a maior parte da existência se dá, a maior parte do tempo é o lado de fora, fora dos grandes dramas e das delicadezas miúdas.

A maior parte do tempo é o que nos escapa.



 Liliane Prata, A maior parte do tempo


*







* c'est ça? não! por favor, não. é terça à tarde, a vida é curta, não sabes? vem comigo. não sentes compaixão por mim? aceita meu convite angustiado: desabilita o automático. olha o mundo com a intimidade de morador nativo. é o velho mundo de sempre, mas não precisas te confundir com o concreto e moldar-te todo rígido - faz a curva, passa ao lado. vai além, alça voo e pousa na beirada dos telhados. faz como o fotógrafo aí em cima: percebe que tudo pode ser uma questão de perspectiva. vês?

domingo, 10 de março de 2013

Se eles apenas aprendessem que o caleidoscópio que gira move a todos nós, um após o outro


  • na mesma semana que uma médica curitibana causa horror por "antecipar óbitos", principalmente de pacientes do SUS,
  • o ministro das finanças do Japão declara que os idosos deveriam se apressar em morrer ao invés de custar dinheiro ao governo em cuidados médicos até o fim da vida, 
  • chama de "povo tubo" os pacientes que não conseguem se alimentar - e completa:
  • "Deus nos livre de ser forçado a viver quando se quer morrer".

  • há poucos dias, na Inglaterra, o escritor Martin Amis comparou a população crescentemente envelhecida da Grã-Bretanha a "uma invasão de imigrantes horríveis, velhos e dementes, emporcalhando restaurantes, lojas e cafés"
  • e sugeriu que fossem instalados estandes de eutanásia nas ruas para que os idosos pudessem se matar
  • "Como a sociedade suportará esse tsunami grisalho? Posso imaginar uma espécie de guerra civil entre velhos e jovens daqui a uns 10 ou 15 anos."

  • enquanto isso, o belo e devastador filme austríaco O Amor, 
  • que retrata o inexorável ocaso de um casal
  • (a última fase da vida de uma mulher que decide morrer na intimidade de sua casa, acompanhada somente do olhar vazio de seu marido),
  • acumula estatuetas: Palma de Ouro, Globo de Ouro, o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, filme do ano para a National Board of Review, quatro prêmios do Cinema Europeu e o Oscar de melhor película estrangeira.

  • [tento buscar algum sentido intrínseco nisto
  • mas o absurdo põe meu olhar à beira de um poço oco onde reverberam o horror e a dúvida:
  • será que na lenta e asfixiante descida até o inevitável
  • a única dignidade restante
  • aos que receberam o privilégio de uma vida longa
  • é esconder suas dores e sua humanidade
  • bem longe do olhar impaciente do mundo cruel?]  


*










* "there's a calm surrender, to the rush of a day, whem the heat of a rolling wind, can be turned away. there's a time for everyone, if they only learn that the twisting kaleidoscope move us all in turn. an enchanted moment, and it sees me through: it's enough for this restless warrior, that we've got this far... " [Can You Feel the Love Tonight foi a canção vencedora do oscar  de 1994, composta por Elton John, com letra de Tim Rice, para o fime O Rei Leão].** dos cantores do vídeo, só o que pude apreender é que são canadenses, de Oakville, Ontario; e costumam reunir-se nesta lanchonete, chamada Tim Horton's...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer



"Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram que você deve fazer, ou o que a sociedade diz que você deve fazer. Eu acredito que devemos estar sempre nos questionando. Eu levo muito a sério a atitude científica de que tudo o que você aprende é provisório, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. As regras criadas pela sociedade não são naturais. Elas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer: 'ok, agora vou ali tomar uma cerveja'. Após me dar conta que eu poderia enfrentar os problemas fundamentais do mundo, eu não pude mais viver sem realizar isto."

Aaron Swartz, em 2009, aos 22 anos

 

*








* Aaron Swartz tinha 22 anos quando explicou porque fazia o que fazia, porque era quem era. Aos 26, ele está morto. Foi encontrado enforcado em seu apartamento de Nova York na sexta-feira, 11 de janeiro. Provável suicídio. Talvez a maioria não o conheça, mas Aaron está presente em nossa vida cotidiana há bastante tempo. Desde os 14 anos, ele trabalha criando ferramentas, programas e organizações na internet. E, de algum modo, em algum momento, quem usa a rede foi beneficiado por algo que ele fez. Isso significa que, aos 26 anos, Aaron já tinha trabalhado praticamente metade da sua vida. E, nesta metade ele participou da criação do RSS (que nos permite receber atualizações do conteúdo de sites e blogs de que gostamos), do Reddit (plataforma aberta em que se pode votar em histórias e discussões importantes), e do Creative Commons (licença que libera conteúdos sem a cobrança de alguns direitos por parte dos autores). Mas não só. A grande luta de Aaron, como fica explícito no depoimento transcrito para o post, era uma luta política: ele queria mudar o mundo. E queria mudar o mundo como alguém da sua geração vislumbra mudar o mundo: dando acesso livre ao conhecimento acumulado da humanidade pela internet. E também usando a rede para fiscalizar o poder e conquistar avanços nas políticas públicas. Movido por esse desejo, Aaron ajudou a criar o Watchdog, website que permite a criação de petições públicas; a Open Library, espécie de biblioteca universal, com o objetivo de ter uma página na web para cada livro já publicado no mundo; e o Demand Progress, plataforma para obter conquistas em políticas públicas para pessoas comuns, através de campanhas online, contato com congressistas e advocacia em causas coletivas. Em 2008, lançou um manifesto no qual dizia: "A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si". Aaron foi enquadrado nos crimes de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações, entre outros delitos. Aaron seria julgado em abril. E, se fosse acatado o pedido da acusação, esta seria a sua punição: 35 anos de prisão e uma multa de 1 milhão de dólares. Aaron Swartz morreu antes, aos 26 anos. E, como disse Kevin Poulsen, na Wired: "O mundo é roubado em meio século de todas as coisas que nós nem podemos imaginar que Aaron realizaria com o resto da sua vida."

** no vídeo, excerto do documentário De Amor se Vive, realizado pelo cineasta italiano Silvano Agostini (1984) -  um resumo de entrevistas feitas com uma mãe, um transexual, um travesti, uma prostituta e um menino de 9 anos, Frank - cada um deles explicando sua forma de ver a vida, o amor, a ternura e a sensualidade. o mais surpreendente no relato de Frank, no trecho acima, além da sexualidade aparentemente precoce (humanos são seres sexuais - e as crianças não escapam disso, apesar da contemporânea idealização da infância e de preferirmos fechar os olhos a esta realidade da vida), é a ausência de temor, de repressão. Frank parece não sentir medo de suas emoções, do seu corpo, de sua natureza, do que as pessoas possam pensar ou fazer diante de seus atos e de suas declarações. uma vida rara, não contaminada pelo ego e eufemismos de que a vida é nociva ou com a necessidade desesperada de se sentir aceito. escrevo que 'parece não sentir medo' porque estou convencida que sim, que o conhece, que certamente já sentiu esta emoção, que sabe como ninguém onde colocar o medo: sob seu controle. por saber conviver de forma saudável com o medo que permite-se, que vive, que experimenta. e que nos perturba. porque viver a vida e o amor através do sexo é não só maravilhoso, mas uma forma de poder imensurável, é alcançar a verdadeira liberdade. por isso o sexo é tão mal visto pelo poder e proibido pelas instituições religiosas: é a revolução em sua forma mínima e embrionária. sexo é poder. mas tal como acontece com todo o poder, há quem queira guardá-lo exclusivamente para si.

***  o menino Frank e o jovem Aaron eram ternos, inocentes, plenos de amor e de coragem. simpatizamos com eles porque nos identificamos: estamos todos (muitos, incoscientemente) na conquista de nossa ternura e inocência, que em algum momento nos foi arrebatada. não sei onde a vida levou o menino Frank - temo saber. mas quando leio sobre Aaron Swartz, ele que acreditava tanto em mudar o mundo, é difícil não pensar: que mundo é esse que criamos onde jovens como Aaron e Frank são os raros?


[acima, trechos retirados do acachapante texto escrito por Eliane Brum para a revista Época, sobre a morte de Aaron Swartz. no título, frase de Carlos Drummond de Andrade, retirado do poema Os ombros suportam o mundo]

sábado, 15 de dezembro de 2012

Os meses oceano

 
E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmos.
E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes 
ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos.
E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos. 

David Mourão-Ferreira



*








* dezembro, anualmente, chega feito oceano. olho da praia, desde o novembro, e já avisto os cardumes, os barcos em férias, os albatrozes... vêm num crescendo, se avolumando, aos berros, aos solavancos. confiro os ventos, aufiro as marés e me lanço: nem sempre dá pé, o mar não é manso. sou d'água, penso com bem força, e avanço. passa janeiro, fevereiro...e só quando março me encontra é que descanso.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Feeling this way today

 
"Como tantos outros, procurei sempre encontrar um significado mais grandioso, ou simplesmente mais humano, para aquela linda frase de que morrem jovens os que os deuses amam. Para que não seja apenas uma frase bonita ou para que não queira antes significar a crença terrível de que os deuses só amam os que morrem jovens, assim como bestas desumanas que se alimentam da juventude ceifada. Não sei a resposta: desisti há muito de entender os deuses, de achar um significado humano para a desordem instaurada pelo divino. Sei apenas, no que aos homens diz respeito, que ficam eternamente jovens os que morrem jovens.

Também achei sempre que a beleza não tinha idade. Achei sempre isso, mesmo antes de deixar de ser novo. Um dia (não me lembro ao certo que idade tinha, mas ainda devia ser novo, a avaliar pelo que segue), estava sentado a almoçar sozinho no meu hotel favorito, no meu terraço favorito. Na mesa ao lado, almoçava uma senhora acompanhada por três cavalheiros. Ela estava de frente para mim e eu fiquei perturbado com sua extraordinária beleza. Fico sempre perturbado com as mulheres demasiado bonitas, nunca sei se são para ser olhadas ou evitadas, contempladas como merecem ou deixadas em paz, porque aquele dom não é culpa que se carregue para devassa alheia. Mas esta mulher parecia uma aparição, uma fada, saída da mata em frente, que era uma mata verdadeiramente encantada. Não estou a brincar, isto foi mesmo assim: eu estava deslumbrado pela beleza dela e ela devia ter uns setenta e muitos anos, talvez mesmo oitenta. Levantei-me no fim do almoço e, quando ia a passar pela mesa dela, não resisti e, em francês - porque a tinha ouvido falar em francês - perguntei-lhe delicadamente se podia dizer uma coisa. Ela fez que sim, com seus olhos de água, e eu disse-lhe exatamente o que pensava: que ela era, talvez, a mulher mais bonita que eu já tinha visto. Ela sorriu, um sorriso lindo mas triste, como se aquilo lhe causasse mais sofrimento do que alegria, pousou uma mão de dedos esguios sobre a que eu tinha apoiado na mesa e disse-me:

 - Oh, non, jeune homme, la beauté c'est la jeunesse! 

Uma frase cruel, sem apelo nem misericórdia, de cuja infabilidade não me desvencilho desde então."



 Miguel Souza Tavares, in No Teu Deserto





*







* desde que vi esta foto do Jim Morrison no meu mural do facebook esta manhã (nascido num 8 de dezembro, há 69 anos) que não paro de suspirar - de tristeza, de nostalgia, de vencida, de tesão. como é possível uma beleza tão transcendente, tão mobilizadora, assim unânime, transgressora e infatigável? eu não entendo. não consigo. e o texto do Miguel Tavares, com todo seu brilhantismo, não me traz luz alguma, só faz lançar-me ainda mais na escuridão, um lodaçal de perplexidão...

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Só o humor salva [2]





*








* são 5h11 e as opções que tenho são: ( ) comer; ( ) beber; ( ) calçar meus tênis e sair pra caminhar; ( ) ler; ( ) pensar que minha insônia tornou-se crônica e vem arruinando, progressivamente, com meus poucos neurônios, minha memória, minha forma física, minha cútis, minha energia, meu trabalho e minha vida pessoal; ( ) chorar; ( ) tomar um relaxante e ir pra cama; (X) antes, fazer uma piadinha de mim mesma porque a barra pesou...

Nua e crua



"Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminando a Terra! Agora, vivo num planeta doloroso, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria."



Frida Kahlo





*









* "Uma porção de Verdade, por favor. Ao ponto!" E o garçom se afasta, retrucando: "Verdade de verdade, só mal passada, meu senhor. A Verdade é uma mulher velha e nua - tirando a pele ressecada que a cobre, a carne que sobra é dura de roer..."  

Em busca do tempo perdido



  • o curta Destino, lançado em 2003 é uma colaboração entre o animador americano Walt Disney e o pintor espanhol Salvador Dalí
  • singular, não só pela parceria, mas especialmente pela produção:
  • iniciado em 1945, só foi finalizado 58 anos depois!
  • Dalí chegou a criar uma série de storyboards e estudos, mas por conta de dificuldades financeiras o projeto foi engavetado;
  • em 1999, Roy Disney ressuscitou a ideia e convocou o animador francês Dominique Monfréy (o mesmo de Tarzan)
  • Monfréy conseguiu capturar os devaneios simbólicos de pintor espanhol nesta leitura do mito grego Cronos e seu amor por uma mortal.
  • uma curiosidade: a seqüência de 17 segundos (com duas tartarugas) é o único trecho animado originalmente em 1945
  • outra pérola que foi salva da etapa inicial do projeto é o tema musical escrito pelo compositor mexicano Armando Dominguez 
  • e interpretado pela poderosa voz da cantora Dora Luz (a mesma da animação Você já foi a Bahia?, de 1944)
  • o curta entrou nos extras de Fantasia 2000 lançado em 2010.




*







* correndo contra o relógio para dar conta de todos os compromissos firmados para este final de ano, passo por aqui, feito o coelho de Alice, só a tempo de confessar este meu reles desejo mortal: ter o deus do tempo por mim apaixonado [não para tornar-me deusa e viver eternamente, mas para ter a face juvenil - plena de vida, esperanças, volúpia e paixão - para sempre congelada] ** o tempo foi curto até para alterar o texto original, que copiei cartesianamente do macacomalandro.

sábado, 10 de novembro de 2012

A gente só queria ver o maldito mar



À nossa geração nunca nos foi permitido ver o mar pela primeira vez 
Ele sempre esteve adentro, reluzente, o grande igual que nós mesmos.

Rogamos tanto às noites que se faça novamente o escuro 
mas quando as preces são atendidas 
é só uma ilusão dos trouxas, uma ardentia nos olhos e
o mar esbraveja aqui dentro, monstro comedor de rocha

Já nascemos umas baleias mórbidas
pobres diabas afogadas neste papel de luz
E é tão mesquinho de pequeno o desejo

A gente só queria ver o maldito mar 
por favor, 
pela primeira vez.



Ana Rüsche, O Grande Plugue, in Nós que Adoramos um Documentário, 2010.  




* 







* o Mumford and Sons é umgrupo indie-folk inglês recordista de prêmios (e já pintou por aqui.) o novo single Lover of the Light + o vídeo absurdo dirigido e protagonizado por Idris Elba valem o olhar até a última cena -  grandiosa! (Elba é a estrela dos seriados The Wire e Luther e também a aposta dos britânicos para viver o próximo 007. hum-hum, o primeiro ator negro a viver o personagem. leitmotiv ele tem: além de ator, também é DJ e produtor de artistas de hip hop).**  Ana Rüsche salva os dias das noites. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

E os enamorados? Ridículos!

 
Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito. 
Do meu quarto ouço a fuzilaria. 
As amadas torcem-se de gozo. 
Oh quanta matéria para os jornais. 
Desiludidos mas fotografados, 
escreveram cartas explicativas, 
tomaram todas as providências 
para o remorso das amadas. 

Pum pum pum adeus, enjoada. 
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos 
seja no claro céu ou turvo inferno. 

Os médicos estão fazendo a autópsia 
dos desiludidos que se mataram. 
Que grandes corações eles possuíam. 
Vísceras imensas, tripas sentimentais 
e um estômago cheio de poesia... 

Agora vamos para o cemitério 
levar os corpos dos desiludidos 
encaixotados competentemente 
(paixões de primeira e de segunda classe). 

Os desiludidos seguem iludidos, 
sem coração, sem tripas, sem amor. 
Única fortuna, os seus dentes de ouro 
não servirão de lastro financeiro 
e cobertos de terra perderão o brilho 
enquanto as amadas dançarão um samba 
bravo, violento, sobre a tumba deles. 


Carlos Drummond de Andrade, in 'Brejo das Almas'




*





* assim que, um Carlos sempre puxa outro. (e Fernandinha achou o exato ponto de sarcasmo que o poema pedia). é o que penso e sempre digo: amar demais não enjoa. mas os enamorados e toda a sorte de casaizinhos - que a polícia dos politicamente corretos não me leia - são um porre! toda gente sabe disso.)
** A verdade é que hoje, as minhas memórias de amores (não só de suas cartas, mas de todos os beijos, promessas e dores) é que são ridículas...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Viés



[...]
Eu queria querer-te e amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
[...]

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo-te aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim.


Caetano Veloso, in "O quereres"


*





* e daí quando me pergunto "que diabo insisto nisso?" que é uma injustiça, uma crueldade, enfim tanto querer e não encontrar contrapartida e mimimi mimimi, lembro do Caetano, iluminado, sorrindo de viés: "não exagera!"

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Saturno c'est moi!


Se um extraterrestre, lá do alto, em sua vigília pelas câmeras do Spaace Home View (o google street view dos ets, for sure) transformasse minha imagem de ontem à noite, no sofá, assistindo o history chanel em gif animado e a publicasse no seu mural do Plasticbooks (o facebook dos ets) instantaneamente conseguiria um meme engraçadinho que garantiria boas risadas por meia hora ou menos.

Meus lábios, estrictos em um perfeito O, um O bem redondo e desenhado. E assim também os dois olhos, as narinas e as orelhas. Três pares de oooooos mais o grandíssimo O que desenhou em minha boca um ovo de avestruz encaixado no ninho com exatidão.

Assim que, assistindo ao history, na sala aqui de casa, com os pijamas que comprei há dois anos, estampado com mini corujinhas - que não são sexies, nem chiques, nem nada, mas foram comprados por menos de 20 dinheirinhos quando custavam algo como 50 - descobri que os anéis de Saturno são feitos de gelo e flutuam no espaço numa órbita certinha e gravitacional em volta do planeta. Que o espaço entre estes, que são muitos mesmo, não é ar, escuridão nem coisa alguma, mas um hiato negro provocado pela força da gravidade de um satélite natural que é exterior ao círculo gelado. E que - rufos de tambor, alongue a exclamação o máximo possível - neste canto escuro e distante do sol da nossa Via Láctea, existe este planeta imenso e gordoto, muito espaçoso e vistoso, com suas centenas de anéis, expelindo continuamente gêiseres de cristais de gelo num fogo de artifício espacial improvável só porque no seu interior há uma fonte de magma fervente que o obriga a um espectáculo vulcânico de repuxo sideral. 

uóóoOOOOh! 




*




*  Conta a mitologia que Urano, o Céu, e Géia, a Terra uniram-se e produziram a primeira raça, os titãs, os deuses da terra, dos quais, Saturno era o mais novo. Contudo, Urano tinha horror à prole, considerava-os feios e imperfeitos por serem feitos de carne. Por este motivo, enterrou-os nas profundezas das trevas para que não ofendessem seus olhos. A mãe, Géia, começou a engendrar uma vingança contra o marido. Arrancou do seio uma pedra áspera, modelando-a numa foice afiada e deu-a ao astuto Saturno para ajudá-la. Saturno, com a foice, cortou os testículos do pai e os atirou no mar. Em seguida, libertou os irmãos e tornou-se soberano da terra. Sob seu longo e paciente reinado, a obra da criação se completou e esse período ficou conhecido como a Era do Ouro, por conta da abundância e da fartura que Saturno presidia. Como deus do Tempo, governou a passagem ordenada das estações - do nascimento e do crescimento, seguidos pela morte, pela gestação e pelo renascimento. É um deus poderoso e ambivalente: conhecido como o "grande ceifeiro" que estabelece os limites onde nem o homem nem a natureza podem penetrar é também o deus da Fertilidade. Com todo seu poder, não consegue aceitar seu destino: ser destronado da mesma maneira que havia destronado o pai. Passou a engolir todos seus filhos, assim que nasciam, para preservar seu reinado. Como rezava a profecia, seu filho mais novo, Zeus, consegue escapar e destronar Saturno, dando origem a era que conhecemos.

Saturno é também conhecido pelo nome de Cronos ou Crono, o deus do Tempo. Aquele que nos ensina a lição do tempo e das limitações da vida mortal. Nada pode ir além do âmbito da própria vida e nada permance inalterado. Uma das facetas mais claras e simples da vida, mas que nos causa tantos sofrimentos, pois é um aprendizado que chega somente com a idade e a experiência. Saturno é um deus que encarna tanto o sentido do tempo como se rebela contra ele. Por isso é destronado e humilhado, devendo aprender com a solitude, o silêncio e a dor. Representa o corpo, pois envelhece de maneira inexorável, ao mesmo tempo que se rebela contra o destino fatal e a descoberta que se está realmente sozinho na vida, a aceitação de sua própria condição: que a juventude cede lugar à maturidade e que jamais poderá ser reconquistada de maneira concreta.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Da série Verdades Indissolúveis: o amor acaba



Ei, moça, repare que assombro:

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois de uma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; no álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.



Paulo Mendes Campos, in Boa Companhia




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* "O amor é um beijo, dois beijos, três beijos, quatro beijos, cinco beijos; quatro beijos, três beijos, dois beijos, um beijo… e fim". (Pitigrilli) ** quem fez a delicadeza de apresentar-me este texto e a citação anterior, foi o Xico Sá, lá no blog da Folha.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sabedoria de rua


"o tempo é uma invenção dos incapazes de amar"

"você não precisa pedir permissão pra construir castelos no ar".

"nada de nosso temos senão o tempo, de que gozam justamente aqueles que não têm paradeiro"

"o agora é tudo o que temos"

"por um minuto, por favor, permaneça em silêncio e olhe para o céu.
e contemple quão extraordinária a vida é"  

"o medo é uma prisão"


"não importa quão linda ela pareça: alguém, em algum lugar, está cansado das merdas dela"






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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Porque viver todos os dias cansa...


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa, variada em cópias iguais.

Não. Cansaço, por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...

Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque ouço, vejo.
Confesso: é cansaço!...


Alvaro de Campos (Fernando Pessoa), in.: Poemas



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* porque me ocorreu ouvir Lana Del Rey no repeat. a voz metálica, a melancolia da canção fizeram hipérbole na nostalgia que ando sentindo. saudades do não vivido. do que ficou para trás sem ser sentido e que hoje faz tanto sentido... "na verdade, amiga, o que me mata é o cotidiano. Eu queria viver só de exceções" (Clarice Lispector). ** frase no título: Pedro Mexia.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Feeling this way today



  • e eu que vivia pela chance de, finalmente chegar em casa e ler, ler, ler até morrer de prazer...
  • ando fazendo dos "meus amantes" a porta de entrada para os reinos de Morfeu:
  • basta abrir um livro pras pálpebras tombarem!
...

  • nunca pensei que diria isso, mas tô implorando: insônia, VOLTA! 

...
  • (ao menos tenho uma boa razão pra não me importar que o mundo acabe em dezembro de 2012:
  • com tantos livros na fila para serem degustados,
  • o próximo ano promete!)


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* e o bloguito vai ficando sem inspiração... sorry, queridos, mas a realidade anda muito chatinha: pra colorir a vida  - e este espaço! - só com muita literatura!

domingo, 27 de novembro de 2011

Feeling this way today





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* Freud disse uma vez que as pessoas se revestem de muita força quando se percebem amadas. Ok, e a força que nos é tirada justamente pelas pessoas que mais amamos? hã? hein?

domingo, 4 de setembro de 2011

That's all




Não adianta: não se perdoa ou se supera a traição, simplesmente aprende-se a duras penas que é mais fácil e menos dolorido deixar de questionar o passado, de analisar o presente e de planejar o futuro.
Com a traição, aliás, não há futuro.

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* sim, os sonhos morrem... "the only  truth is that everyone is going to hurt you; you just got to find the ones worth suffering for". Bob Marley