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sábado, 3 de agosto de 2013

Insônia [5]



Entre mim e o que em mim  
É o quem eu me suponho 
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim





Fernando Pessoa, Entre o sono e sonhos


*








* a insônia bate à minha porta sem aviso prévio.
- chegaste?
- sabes que não falho.
- és monstruosa em tua irrepreensibilidade.
- eu sei. 
entra, instala-se no meu colo, nada de licenças, tudo muito certo. encaro-a como quem encara o espelho - o reflexo que hesito em enxergar, mas que enfim, aceito, como o céu que nos cobre a existência. olha-me com olhos de gente e escuta-me com gigantes ouvidos antropomórficos. pede-me que a ajude a compreender-se, mas faz-me pedidos estranhos, mais insanos do que a própria loucura...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Uma história sem fim


  • nos anos 70, a artista sérvia Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay
  • foram 12 anos juntos
  • 5 deles, morando em um furgão
  • quando a relação já não valia mais aos dois
  • decidiram percorrer os 2500 km da Muralha da China,
  • partindo de lados opostos
  • para se encontrar no centro,
  • dar um último grande abraço um no outro
  • e nunca mais se verem.
  • 23 anos depois, em 2010,
  • Marina é uma artista consagrada
  • o MoMa de Nova Iorque dedica uma retrospectiva à sua obra
  • nessa exposição, a artista compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente
  • Ulay chegou sem que ela soubesse...



"Não digas nada! Nem mesmo a verdade. Há tanta suavidade em nada se dizer e tudo se entender. Não digas nada..." [Fernando Pessoa]


*








* está lá, no texto onde descrevo a performance de Marina Abramovic no MoMa, escrito em 2010 e só postado em maio de 2011: 'a edição é uma função que nunca termina - ou o assunto é raso, não nos mobiliza e cansa ou a gente se cansa de tanto matutar o assunto que não cansa - e só acaba quando paramos de matutar. o que ainda não é o caso deste texto...' premonitório? nem eu sei responder... a gravação do encontro destes dois ex-amantes deixa esta pergunta e os dois textos que escrevi sem ponto final. para sempre. uma neverending story... e não seria esta expressão um sinônimo para o amor?

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Da série Verdades Indissolúveis: o amado e o amante

"Em primeiro lugar, o amor é uma experiência da junção entre duas pessoas – mas o fato de ser uma experiência conjunta não significa que seja semelhante para as duas pessoas envolvidas. Há o amante e o amado, mas esses dois vem de países diferentes. Geralmente o amado é apenas um estímulo para todo o amor que permaneceu guardado no amante até aquele momento. E de alguma forma todo amante sabe disso. Ele sente em sua alma que o amor é uma coisa solitária. Ele aprende a conhecer uma nova e estranha solidão, e este é o conhecimento que o faz sofrer. 

Logo há somente uma coisa que o amante pode fazer. Ele deve abrigar o seu amor dentro de si, da melhor maneira que conseguir; deve criar para si mesmo um mundo interior totalmente novo – um mundo intenso e estranho, completo em si próprio. Devemos acrescentar que esse amante do qual falamos não precisa necessariamente ser um jovem economizando para comprar um anel de noivado; esse amante pode ser homem, mulher, criança, ou qualquer criatura humana sobre esta terra.

Agora, o ser que é amado também pode ser descrito. As pessoas mais remotas podem servir de estímulo para o amor. Um homem pode tornar-se um vovô caduco e continuar amando somente uma estranha garota que viu nas ruas de Cheehaw durante uma tarde, vinte anos antes. Um pastor pode amar uma mulher decaída. O ser amado pode ser traiçoeiro, sujo e cheio de maus hábitos. Sim, e o amante verá seus defeitos, tão claramente quanto qualquer outra pessoa – mas isso não afeta a evolução do seu amor. A mais medíocre das pessoas pode ser objeto de um amor selvagem, extravagante e belo como os lírios venenosos do pântano. Um bom homem pode ser o estímulo para um amor violento e desprezível, ou um louco grasnando pode trazer à alma de alguém um idílio puro e cândido. Portanto, o valor e a qualidade de qualquer amor são definidos somente pelo amante.

Essa é a razão pela qual a maioria de nós prefere amar do que ser amado. Quase todas as pessoas querem ser amantes. E a áspera verdade é que, de um modo secreto, a condição de ser amado é inaceitável para muitos. O amado teme e odeia o amante, e com toda a razão. O amante suplica qualquer relação possível com o amado, mesmo que essa experiência lhe cause nada mais do que sofrimento."




Carson McCullers, trecho da novela A Balada do Café Triste



*








 

* "nunca amamos alguém. amamos tão somente a idéia que fazemos de alguém. é a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. isto é verdade em toda a escala do amor. no amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. no amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa" [Fernando Pessoa]. ** fotos: Vivian Maier.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Com meus sonhos sob teus pés, suavemente...


Se eu tivesse os trajes bordados do céu,
Adornados com luz dourada e prateada,
E os trajes escuros, sombrios e azuis
Da noite, 
à luz e à meia-luz,
Eu estenderia estes trajes sob seus pés
Mas eu, sendo pobre, 
tenho só os meus sonhos;
Então estendo os meus sonhos sob seus pés,
Com suavidade 
porque você caminha neles.



William Butler Yeats


*










* para a mais carnal das ilusões*, vale celebrar em dobro - hoje e em 12 de junho - e com dois posts. Feliz Dia de São Valentim, caríssímos!  

[*Fernando Pessoa]

** tradução do poema de Yeats como se apresenta no filme Nunca te vi, sempre te amei [84, Charing Cross Road, 1986].

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Tanto mar, tanto mar...


"O mar, o mar, sempre recomeçado!" Paul Valery


"Onde há-mar, há-braços e sol-risos." (Anônimo)


"O mar é a religião da natureza." Fernando Pessoa


"Se todos os rios são doces, de onde o mar tira o sal?" Pablo Neruda, in O Livro das Perguntas 


"Ó mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal?" Fernando Pessoa, in Mar Português

"Para o desejo do meu coração, o mar é apenas uma gota." Adélia Prado


Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E há séculos mil, séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis numa luta selvagem,
De tal modo gostais numa luta selvagem,
Eternos lutadores ó irmãos implacáveis!

Charles Baudelaire, in As Flores do Mal

"De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua." 
  
Sophia de Mello Breyner Andresen


"Naquele momento o mundo parou. E das distâncias vieram as águas e o barulho do mar." Hilda Hilst 

"Para adiante! Pelo mar largo!
Livra o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-me fraca ilusão.
Quero a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Quero a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu apelo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todo, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu. 

Cecília Meireles, Mar absoluto


"Ergueste para mim os olhos, tão de mar que neles passavam barcos ao longe, vôos tranquilos de gaivotas". Rosa Lobato de Faria, A trança de Inês


"No mar estava escrita uma cidade" C. Drummond de Andrade, Mas viveremos



"Agora eu já sei, da onda que se ergueu no mar..." Tom Jobim, Wave


*







* Foi desde sempre o mar... nem só porque a morte e a vida nasceram nele, mas pelo ilimitado, incontrolável, imensurável, infinito, abarcador. Pelo que não tem nome... A terra é azul porque o céu espelha o mar? Ou é o mar que reflete o céu? Onde começa um e acaba o outro? Não sei onde está o limite. 72% de água salgada - mais da metade do que sou flui e se alastra e se movimenta com as marés. Como definir-me? Como limitar-me? Represar a sede em mim? Eu? Bebo horizontes! Que posso saber da vida? Que vem em ondas, como o mar, num indo e vindo infinito. Do seu significado? No fundo permanece o mistério absoluto: fendas abissais, monstros primitivos, tesouros perdidos. E a morte. Transformando rocha em areia. Areia em sal. Sal em vida. Assim para sempre. Sei que o mar é minha pátria. Meu pai e minha mãe. O amante que se compraz em seduzir e envolver. O lar onde meus olhos encontram conforto e a paz. O resto é mar, é tudo o que não sei contar. Mais nada.


** [nos sublinhados, as citações de: 1. Cecília Meireles (frase que inicia o poema Mar Absoluto); 2. Nelson Rodrigues; 3. Cecília Meireles (retirada do poema Noturno); 4. Lulu Santos (da canção Como uma Onda); 5. Tom Jobim (da canção Wave). no título, refrão da canção Tanto Mar, do Chico Buarque]

*** [os créditos das fotos 2, 7 e 9 vão para Raimundo Arrosi - 2 e 7, Balneário Camboriu; 9, Itajaí. A foto de número 4 é de Guaraci Zukoski, da Praia Brava, em Itajaí]

**** este é o post de número 700 do blog. vai dedicado ao leitor que pediu por um texto "mais explícito - luciene pura" [sic] e que revelasse a minha essência.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A morte como conselheira


Tudo quanto vive, vive porque muda, muda porque passa; e, porque passa, morre. 

Tudo quanto vive perpetuamente — torna-se outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.

A vida é pois um intervalo, um nexo, uma relação, mas uma relação entre o que passou, o que passará, intervalo morto entre a Morte e a Morte. 

Bernardo Soares (Fernando Pessoa), Livro do Desassossego

...


A questão não é a morte, mas a transformação: uma gota de chuva transforma-se em vapor, que passa a fazer parte de uma nuvem e cai em forma de chuva entranhando-se profundamente no solo, reemergindo como uma nascente borbulhante que se transforma num regato, depois num rio, que flui para o mar. Podemos dizer que a gota de água morreu? 

Em cada estado, é a mesma gota de água numa expressão diferente. A ideia de que tenho um corpo fixo trancado no espaço e no tempo é claramente uma miragem se as gotas de água do meu corpo tivessem sido oceano, nuvem, rio ou regato na véspera. 


A possibilidade de vidas infinitas se prolongarem para a frente e para trás é um conceito cativante: cada alma pode percorrer centenas de céus e de infernos. A morte é uma breve paragem numa viagem interminável da alma. 

                                                       Deepak Chopra

...


O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir. 

                                    F. Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

...


A vida é dialética, e por isso não é lógica. A lógica significa que o oposto é realmente oposto, e a vida sempre implica o oposto em si mesmo.

Na vida, o oposto não é realmente oposto, mas complementar. Sem ele, nada é possível. Por exemplo, a vida existe por causa da morte. Se não houvesse morte, não poderia haver vida.

A morte não é o fim e não é inimiga; pelo contrário, por causa da morte, a vida se torna possível. Assim, a morte não está em algum lugar no final; ela está presente aqui e agora.

Cada momento tem sua vida e sua morte; senão, a vida seria impossível.


                              Osho, Tao - Sua História e Seus Ensinamentos
  ...


A conquista do medo da morte é a reconquista do prazer da vida. Apenas é possível vivenciar uma afirmação incondicional da vida depois que se aceita a morte não como o contrário da vida, mas como um de seus aspectos. Desde sua gênese, a vida está sempre protegendo-se da morte, e às portas da morte. A conquista do medo alimenta a coragem da vida.

                                       Joseph Campbell, O Poder do Mito

...


O mundo é mágico. 

As pessoas não morrem, ficam encantadas. 

João Guimarães Rosa



Presta atenção nas pausas, as pequenas,
que inesperadamente o destino te concede.
Um dia, "a-que-virá", surgirá assim.


                                                    Friedrich Doldinger

...



Houve um tempo em que o nosso poder perante a morte era muito pequeno. E por isso os homens e mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. 

Hoje, o nosso poder aumentou, a Morte foi definida como inim
iga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de que nos livramos de seu toque. Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos diante ela (inutilmente, porque só podemos adiar) mais tolos nos tornamos na arte de viver. 

E, quando isso acontece, a Morte que podia ser conselheira sábia, transforma-se em inimiga que nos devora. Acho que para recuperarmos um pouco a sabedoria de viver seria preciso que nos tornássemos discípulos e não inimigos da Morte.

Mas para isso seria preciso abrir espaço em nossas vidas para ouvir a sua voz. Seria preciso que voltássemos a ouvir os poetas...


                                  Rubem Alves, A morte como conselheira



*






* não adianta se enganar: a morte nos move - assim como o sexo (a origem da vida e - há quem diga - la petit mort); o amor (a enganação da morte) e Deus (o eterno - a negação da morte). para mim, é um tema fascinante - vira e mexe aparece por aqui. especialmente quando chega novembro (tento, mas não consigo deixar de pautar-me pelas efemérides...). ano passado foram cinco posts sobre o assunto - A última viagem; Día de Los Muertos (sobre a maneira colorida e festiva que os mexicanos encaram a morte); "belissima creatura", um poema do poeta gaúcho, Leonardo Marona; o premiado curta de animação La Dama y la Muerte e uma visão muito particular da morte, Um movimento e uma pausa. este ano, os 'pratos' não ficaram prontos a tempo e só o que consegui foi juntar todas as ideias neste bandejão com a aparência de comida fria e despersonalizada de buffet... A morte sabe-me assim, também: não pede passagem, não é sempre refinada, não se explica e nem dá motivos. e de que adianta falar de motivos? às vezes basta um só, às vezes nem juntando todos... [José Saramago].



e se rir desopila o fígado - este curta animado - mais um trabalho de formatura dos estudantes da The Animation Workshop - pode bem funcionar como digestivo para este sarapatel de letras  - e como lembrete: para alcançar a Valhalla, onde estão todos os fortes, os amigos, as riquezas e o néctar dos deuses, só "morrendo em batalha", ok? nada menos que isso...).

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O que for, quando for, é que será o que é


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
...
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), in Poemas Inconjuntos 



*





a primavera é depois de amanhã... e a realidade não precisa mesmo de mim. mas o que seriam dos sonhos do mundo? não precisam eles também de um "lar" para viverem?  (e o que seria da poesia sem ti?) 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

E os enamorados? Ridículos!

 
Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito. 
Do meu quarto ouço a fuzilaria. 
As amadas torcem-se de gozo. 
Oh quanta matéria para os jornais. 
Desiludidos mas fotografados, 
escreveram cartas explicativas, 
tomaram todas as providências 
para o remorso das amadas. 

Pum pum pum adeus, enjoada. 
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos 
seja no claro céu ou turvo inferno. 

Os médicos estão fazendo a autópsia 
dos desiludidos que se mataram. 
Que grandes corações eles possuíam. 
Vísceras imensas, tripas sentimentais 
e um estômago cheio de poesia... 

Agora vamos para o cemitério 
levar os corpos dos desiludidos 
encaixotados competentemente 
(paixões de primeira e de segunda classe). 

Os desiludidos seguem iludidos, 
sem coração, sem tripas, sem amor. 
Única fortuna, os seus dentes de ouro 
não servirão de lastro financeiro 
e cobertos de terra perderão o brilho 
enquanto as amadas dançarão um samba 
bravo, violento, sobre a tumba deles. 


Carlos Drummond de Andrade, in 'Brejo das Almas'




*





* assim que, um Carlos sempre puxa outro. (e Fernandinha achou o exato ponto de sarcasmo que o poema pedia). é o que penso e sempre digo: amar demais não enjoa. mas os enamorados e toda a sorte de casaizinhos - que a polícia dos politicamente corretos não me leia - são um porre! toda gente sabe disso.)
** A verdade é que hoje, as minhas memórias de amores (não só de suas cartas, mas de todos os beijos, promessas e dores) é que são ridículas...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Porque viver todos os dias cansa...


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa, variada em cópias iguais.

Não. Cansaço, por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...

Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque ouço, vejo.
Confesso: é cansaço!...


Alvaro de Campos (Fernando Pessoa), in.: Poemas



*







* porque me ocorreu ouvir Lana Del Rey no repeat. a voz metálica, a melancolia da canção fizeram hipérbole na nostalgia que ando sentindo. saudades do não vivido. do que ficou para trás sem ser sentido e que hoje faz tanto sentido... "na verdade, amiga, o que me mata é o cotidiano. Eu queria viver só de exceções" (Clarice Lispector). ** frase no título: Pedro Mexia.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mais diverso que o universo



Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço.
Todas as sensações me tomam e nenhuma fica.
Sou mais variado que uma multidão de acaso,
Sou mais diverso que o universo espontâneo,
Todas as épocas me pertencem um momento,
Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim.
Fluído de intuições, rio de supor - mas,
Sempre ondas sucessivas,
Sempre o mar,
Sempre separando-se de mim, indefinidamente


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), trechos, in Lisbon revisited, 1926
 
 
 
*
 
 
 
 
* já nem me impressiono mais: nunca me canso deste senhor que é sempre novo a cada releitura! ** (Sabe o que me ocorre sempre que o leio? Pessoa só ele. Eu sigo animal - selvagem e incivilizada...) *** na imagem, muro de Portugal, pois, pois, do flickr de tuna bites (que pertence a um grupo que fotografa mensagens escritas em paredes, no chão, nas portas e nos postes - poeticamente intitulado wall wisdom).

domingo, 24 de julho de 2011

Cortina de fumaça

Jean Reno [avant, le chat]


Baryshnikov e Liza Minelli


Ava Gardner [e as Torres Gêmeas]


Anita Ekberg


Bob Dylan

Marilyn Monroe


Salvador Dalí e Gabrielle Coco Chanel


Lennon [enquanto os outros Beatles tomam chá]


 Sophia Loren e Marcelo Mastroianni, em cena


The "rat pack" - Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Frank Sinatra 


Simone de Beauvoir, Sartre e Che. Conta a lenda que um dia perguntaram à Sartre: O que há de mais significativo em sua vida. "Tudo", Sartre respondeu. "Amar. Viver. Fumar".


James Dean


Peter O'Toole


Paul Newman


Marc Jacobs


Os arquitetos Charles Eames e Eero Saarinen


Diana Vreeland


*


Acendo um cigarro [...]
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

Fernando Pessoa [Álvaro de Campos] Tabacaria, 1928

*




*



* não fumo. jamais fumei. mas ando pensando que deve ser uma libertação expirar algo mais visível que apenas ar. deixar sair. exaurir o peito e ver tudo se transformar em fumaça.. ** música do filme Smoke, de 1995, composta por Jerry Garcia, do Grateful Dead.